BACALHAU COM BATATA

Entre várias lembranças do período 1949/1968, tenho o ciclo migratório para Jales como uma escola de multiculturalismo, convivendo numa pequena cidade de economia agrícola, fertilizada pelo imenso celeiro de esperanças. Já relatei a grande imigração japonesa (BANZAI) para Jales,responsável por significativa melhoria no campo e no comércio, introduzindo em nossa zona rural tecnologias de sua milenar cultura, promovendo desenvolvimento acelerado na agricultura e introduzindo novos procedimentos na vida produtiva, caso do cooperativismo, talvez o maior exemplo de solidariedade em favor do trabalho.Rendi todas as homenagens à poderosa imigração italiana, num artigo(FRANGO COM POLENTA) que exalta a extraordinária importância de italianos e descendentes na construção de Jales.Não deixei de lembrar à pequena, mas valorosa colônia árabe que escolheu Jales para fincar raízes sólidas, destacando os mascates pioneiros, num artigo (BOM E BARATO) que se revela a luta comercial do espírito "fenício" que se apropriou dos árabes, carregando malas pesadíssimas, visitando os moradores da zona rural de casa em casa,de porta em porta. Com a roupa toda molhada pelo calor escaldante de Jales, não abriam mão de um sorriso permanente, chamando as pessoas visitadas de "BRIMO", forma carinhosa de aproximação. Vocacionados para o comércio, os árabes que vieram para nossa cidade, maioria esmagadora de libaneses, começavam como mascates,acumulavam pequeno capital e abriam uma pequena porta no comércio, sempre prosperando, até chegar à loja de duas ou três portas. No artigo ARRIBA, procurei desenhar a grande alma da Espanha,lembrando do sorvete imbatível, da melhoria na rede hoteleira, da culinária nos restaurantes, da opção preferencial dos espanhóis provenientes da Andaluzia, sul da Espanha, pela atividade agrícola.E para encerrar o ciclo da imigração com o artigo de hoje, que titulei, carinhosamente, de BACALHAU COM BATATA, homenageio os portugueses e descendentes que tomaram conta do comércio pioneiro jalesense, dominando, completamente, o ramo de secos e molhados, como eram chamados os "armazéns", "vendas" ou"casas", na época.Com muita emoção, porque sou 75% português e 25% espanhol,como a maioria absoluta da população brasileira e jalesense,recordo hoje os heroicos navegadores lusitanos que em 1500 descobriram o Brasil e desde sempre descobriram Jales.
O BRASIL É PORTUGUÊS
Antes de falarmos dos portugueses que vieram para Jales, é importante não esquecer as grandes navegações, quando a engenharia naval portuguesa era a mais avançada do mundo, com a Escola de Sagres sendo a principal referencia mundial para estudiosos dos mares e seus infinitos mistérios. Num tempo que ainda se acreditava que a terra NÃO era redonda, que dois continentes (Americano e Oceania) não eram conhecidos e a velha Europa ditava as regras do comércio internacional, Portugal sai à frente e avança suas caravelas para mares nunca dantes navegados, lembrando o imortal Lusíadas de Camões, obra prima da epopeia portuguesa na conquista de novas terras. Liderando a corrida das grandes navegações, Portugal descobriu o Brasil, iniciando uma colonização que durou mais de trezentos anos, período que fincou raízes profundas em nossa cultura, legando nossa religiosidade cristã (Católica), nossa língua, hábitos alimentares, comportamento afetivo, fazendo de sua imensa colônia brasileira a maior e mais importante colônia do além mar e orgulho do Império Português. Conquistamos nossa independência política em 1822, mas continuamos, durante todo século dezenove, uma gigantesca nação portuguesa, liderada por D.Pedro II, nascido no Brasil, mas filho da nobreza portuguesa, sendo neto de D.João VI e filho de D.Pedro I. Somente com a grande imigração europeia no final do século dezenove é que o Brasil começa ficar maior que suas raízes portuguesas. A grande imigração, iniciativa de estadista de D.Pedro II, trouxe italianos, alemães, poloneses, ucranianos, espanhóis, escandinavos, eslavos, japoneses e mais uma leva de imigrantes de vários países, fazendo o Brasil ampliar seus conhecimentos em vários campos de atividades, porém jamais deixando de ser português em sua cultura geral. E a imigração portuguesa, em razão de nossos laços profundos nas relações bilaterais, nunca foi interrompida. Desde a chegada de Cabral, em abril de 1500, até hoje, abril de 2015, os portos do Brasil nunca se fecharam aos irmãos portugueses.
DE PORTUGAL PARA JALES
Os portugueses chegaram a Jales diretamente de Portugal, enquanto seus descendentes, de infinitas gerações, vieram de todo Brasil. Quando falamos de imigração, estamos nos referindo aos imigrantes de primeira geração e todos seus descendentes. O sujeito chama-se José Ferreira dos Santos é naturalmente descendente de português, embora possa ter também antepassados indígenas ou de outras nacionalidades. Sua identidade lusitana está no nome português, prevalecente em sua documentação. Jales teve a sorte de receber várias famílias portuguesas puro sangue, como nos referimos aos nativos não cruzados com outras nacionalidades e também por serem nascidos e criados em Portugal. E Jales recebeu também milhares de brasileiros que vieram de várias regiões do País, principalmente do Estado de São Paulo, que são descendentes de portugueses de várias gerações passadas, não sabendo identificar sua própria árvore genealógica, sabendo, no máximo o nome e a origem do bisavô. A imigração portuguesa para Jales é constituída de descendentes de portugueses cujos antepassados vieram de Portugal desde o século XVI, logo após o descobrimento do Brasil. Durante três séculos e meio, o Brasil só conheceu a imigração portuguesa, tornando-se, naturalmente, até hoje, uma imensa nação portuguesa. Em Jales, cidade de Santos, Silva, Ferreira, Oliveira, Dias, Lopes, Gonçalves, Freitas, Ribeiro, Bernardes, Dutra, Seixas, Alves, Viana, Pimentel, Amaro, Fernandes, Capela, Marques, Souza, Menezes, Cardoso, Pires, Andrade, Reis, Barbosa, Rodrigues, Castro, Amadeu, Costa, Rocha, Paz Landin, Saraiva, Nogueira, Leite, Zacarias, Brito, Celis, Barroso, Soares, Bueno, Batista, Custódio, Lima, Borges, Silveira, Baião, Nobre, Pinheiro, Miranda, Macedo, Rezende, Pantaleão, Bernardo, Sampaio, Matos, Moraes, Neres, Paula, Carvalho, Vieira, Nunes, Balbino, Belo, Policarpo, Godoy, Ramos, entre tantos outros, a colônia portuguesa se faz presente, inclusive se encontrando, até hoje, muitos moradores em Jales portadores desses sobrenomes. Os portugueses foram beneficiados, historicamente, no processo imigratório, pela língua, ferramenta primordial para adaptação cultural e comunicação verbal com a população brasileira. Falar a mesma língua do país que hospeda, geralmente para sempre, é uma vantagem descomunal em relação aos demais imigrantes, principalmente os de línguas não latinas, caso de árabes, alemães, poloneses, etc. Para Jales, especificamente, fundada em 1941, em plena guerra mundial, vieram portugueses que sentiram a crise econômica provocada pelo envolvimento global da Europa no conflito, além de jovens, após a segunda guerra, que fugiam das guerras coloniais de Portugal, principalmente as de Angola e Moçambique. E como sempre aconteceu, desde 1500, vieram para Jales portugueses que sempre foram craques no ramo de secos e molhados, para abrir sua porta ao distinto público, trabalhando bem com o fiado, conquistando a "freguesia" com a costumeira simpatia lusitana. A crise política interna de Portugal, que viveu quarenta anos sob a ditadura implacável de Oliveira Salazar, notoriamente a favor do nazismo e fascismo, também contribuiu para a partida de muitos portugueses que faziam oposição ao Salazarismo. A política salazarista não abriu emprego para a juventude portuguesa, provocando estagnação econômica, além de pilotar um governo de extrema-direita radical e conservadora, insensível aos novos tempos e a derrota de seus aliados nazistas e fascistas (Hitler e Mussolini), a partir do qual ficou politicamente isolado da Europa democrática que emergiu da segunda guerra mundial. O desemprego causado pelo período salazarista provocou grande onda de migrações para o Brasil, que os recebeu de braços abertos. É também importante destacar que muitos jovens portugueses tinham parentes no Brasil, facilitando que já chegassem com trabalho, geralmente nos armazéns de secos e molhados. “Lápis na orelha, marca registrada do balconista português nos armazéns de secos e molhados, assim que chegava de Portugal já tomava conta do balcão e se dirigia aos “fregueses” com a maior naturalidade”: pois não, meu “ sinhori" ! Os primeiros portugueses que vieram para Jales se estabeleceram, obviamente com armazéns de secos e molhados. As imagens mais fortes de minha infância são a Casa Dias, de Eduardo Dias, casado com Dona Amélia e pai de Tonico Dias (depois Prof.Dias) e Adauto, hoje Adauto do Cartório, meus amigos de infância. Éramos vizinhos de muro, pois a Casa Dias ficava na esquina da Av.Francisco Jalles com a Rua doze, ao lado da farmácia de meu pai. Arroz, feijão e vários outros produtos eram vendidos a granel. A gente pedia um quilo de feijão e Seu Eduardo pegava uma caneca comprida, que tem um nome próprio, mas no momento não lembro, enfiava dentro do saco, pesava, retirando um pouco quando passava do peso ou completando até chegar ao peso solicitado. Como hoje tudo é embalado, é difícil passar a nossos netos a precariedade dos armazéns de secos e molhados de nossa infância. Outro armazém que também marcou muito minha infância foi à Casa Portuguesa, de David Lopes, um português muito culto e simpático, de elevado espírito comunitário. Casado com Dona Maria, também portuguesa e católica muito devota, David Lopes teve a filha Hilda, que casou com Henrique, o português mais querido da história de Jales. David Lopes foi um exemplo como chefe de família, como empresário e como cidadão. Na sagrada missa, lá estava David Lopes, com D.Maria de Lourdes e Hilda. Como empresário, abastecia toda Jales e região, com atenção especial para a zona rural. No campo da cidadania, era um cidadão atuante, presente em todas as quermesses, doando ou arrematando prendas. Como católico atuante, sempre ajudando a igreja. Também se fazia presente em todos os movimentos da sociedade jalesense. Finalmente, fechando o ciclo de grandes lembranças de secos e molhados, tivemos a Casa Brasileira, de Manoel Paz Landin, piauiense de nascimento, de origem portuguesa e pais de meus grandes amigos Milton e Silvinho Paz Landin. Seu Manoel também era chegado num lápis na orelha e adorava bater papo com seus "fregueses", com aquela simplicidade que fez dele um dos homens mais queridos e respeitados em toda região. Ainda no ramo de secos e molhados, lembro bem de Salgueiro, casado com a irmã de Baiaco. Também me lembro de Amílcar, muito jovem, chegando a Jales. Outro português muito bom de papo era Manoel Dias Caetano. Seu Aristeu, pai de Hélio, Dota Zélia, Beu, Emilson e a mais velha que o nome não chega, foi outro expressivo comerciante jalesense, além de pai exemplar na educação dos filhos. Fiquei devendo muitos portugueses que a memória não ajudou colocar no artigo, mas aceito, de suas famílias, através do e-mail abaixo, os nomes esquecidos e que merecem ser eternizados na história de Jales. E para os amigos que elogiam ou criticam os títulos de meus artigos, acho BACALHAU COM BATATA a melhor expressão da culinária portuguesa, no mesmo patamar de qualidade que o FADO tem para a música popular da grande Pátria Mãe de todos nós. Para os brasileiros que ainda não tiveram o prazer de conhecer Portugal, desejo contar um fato, simples, singular, acontecido comigo. Estava numa tremenda fila em um Grande Armazém, em Lisboa, para embrulhar algumas pequenas compras. E a fila andando muito lentamente. De repente, uma funcionária, rostinho cor de rosa, vendo meu sotaque brasileiro, cercado de turistas alemães, japoneses, franceses, ingleses, etc., por todos os lados, aproximou-se de mim e perguntou se estava com pressa. Ouvindo que sim, retirou-me da imensa fila, levou-me a um pequeno corredor, empacotando as compras. Curioso com tamanha generosidade, perguntei qual a razão, recebendo como resposta uma frase que se eternizou em minha mente:- Porque você é brasileiro!!! Então descobri duas grandes verdades: o povo português adora o povo brasileiro e são também os inventores do "jeitinho", copiados pelos brasileiros para o resto da vida!

Roberto Gonçalves é Cientista Político
roberto.motivacao@gmail.com

 

DA SÉRIE A JALES QUE EU VUVI

DIA DAS MÃES

Entre todos os membros da família, a mãe, por unanimidade, é a personalidade mais venerada. Pelo menos no ocidente, fortemente influenciado pelos valores do cristianismo. Maria, mãe de Jesus, é a protagonista principal da família.
Quando se fala de mãe, pensamos que ela vem pronta, como se estivesse aparecido no dia em que começamos a conhecê-la e a amá-la, vivendo sob seus cuidados, como frágeis dependentes de corpo e alma.
Mãe não surge do nada, como num passe de mágica. Lembrando outras divindades da natureza, mãe também precisa ser construída.


RECEITA DE MÃE:

Para fabricar uma mãe, construa uma oficina de amor, com ruídos e agitações, vozes discordantes e muitas opiniões.
Coloque na massa uma lata de doação, reservando para ela o menor espaço de confecção porque é sempre a última que tem acesso ao pão.
Faça o filho, por vontade dela, soberano, mais evite transformá-lo no ditador de plantão.
Não tente fazê-la perfeita, porque sempre errará por amor ao filho, tentando introjetar nele, uma grandeza que é só dela, obtida no momento sublime da maternidade.
Mãe é advogada de causas impossíveis, acreditando sempre no amor e na recuperação do filho que abandonou a estrada do bem.
Mãe é o curativo de feridas que não se curam, muitas vezes machucando a própria mão.
Conselheira de projetos perdidos, num mundo complicado como o nosso, mantém elevada temperatura da existência, fortalecida por seu espírito superior.
Mãe é uma mulher desarmada, com a guarda sempre aberta sem nunca deixar de ser pronto socorro permanente.
Mãe é a contradição de múltiplos desafios, lutando para vencer sua própria fragilidade, mas fazendo-se fortaleza no espelho do filho, tornando a vida mais suave, apesar de amarguras ocasionais.
Mãe “é uma mãe”, sempre, mesmo que as circunstâncias cobrem uma madrasta.
A receita de mãe é o desafio milenar da humanidade. Sabe-se que ela tem o fermento do amor, o arranjo da esperança, a decoração dos sonhos no altar dos deuses.
Se você é mãe, sabe do que estamos falando... .
Se você é filho, procure pensar um pouco!


A DONA DE CASA


Hoje é a comemoração do “Dia das Mães”. Embora a sociedade de consumo priorize o presente material, os filhos sempre dão um jeito de manifestarem amor e gratidão. A natureza humana desenvolve sempre mecanismos de defesa através do amor. E a mãe é a principal transmissora desse sentimento no coração dos homens. Assim como os pássaros são grandes plantadores de sementes, espalhando árvores em todas as direções, as mães fazem o mesmo, plantando amor no coração dos filhos, estimulando a convivência pacífica com seus semelhantes.
Na Jales de minha infância, a maioria absoluta das mães eram “donas de casa”, isto é, não trabalhavam fora. Hoje sabemos que administrar a casa é uma das mais complexas atividades das sociedades organizadas.
Cuidar de uma casa, na Jales da década de 50, era uma dificuldade dobrada. Além de educar os filhos, num tempo de prole numerosa, a mulher tinha que lavar, passar,cozinhar, arrumar cozinha, costurar, fazer faxina e ainda “segurar a barra” de enfrentar a poeira, na seca, e o barro, no período chuvoso. Para aumentar ainda mais seu calvário de dona de casa, tinha que puxar água de poço, rachar lenha para queimar em seu permanente produtor de fumaça nos olhos, mas, de comida gostosa, chamado fogão de lenha. E Jales ainda era visitada, diariamente, por exércitos e mais exércitos de mosquitos e baratas, pois vivíamos com mato por todos os lados e condições sanitárias precárias.
Mas a mãe jalesense tinha orgulho de ser dona de casa, porque sabia ser a heroína que ajudava o marido ir à luta e os filhos serem encaminhados para a direção do bem.
Sempre lembro o dia que a filha de um amigo de Gino da Farmácia (Guilherme Soncini), entrou na farmácia, carregando uma caixa pesada. Gino pediu para ela levar um abraço a seu pai e perguntou onde trabalhava, indignado com o tamanho e o peso da caixa, incompatíveis com sua gestação avançada. Ela respondeu que não trabalhava, porque era apenas dona de casa.
Coração maior que o peito, Gino pediu a um funcionário que levasse a caixa para ela e falou com carinho e firmeza:- Como é que você não trabalha, minha filha? Ninguém trabalha mais que a dona de casa !

DONA MAURA

A mãe jalesense vivia o conformismo de ser apenas esposa de fulano, evidenciando sua exclusão no campo de afirmação social. Hoje a mulher deseja ser seu próprio nome, sem negar o vínculo familiar.
Que as mães da Jales contemporânea, desempenhando jornada dupla de trabalho, não se esqueçam que a mulher, trabalhando fora, paga empregada ou faxineira, reduzindo a carga de serviço doméstico.
Na Jales antiga, houve casos de jornada dupla de trabalho, levando mães de prole numerosa à exaustão.
Na fundação da Vila Jales, muitas famílias que vieram para nossa terra, foram beneficiadas pela sorte, em tempo integral. Mas tivemos famílias que viveram perdas e adversidades, exigindo uma luta gigantesca para superá-las. Caso de Dona Maura,que hoje, 11 de maio de 2014, Dia das Mães, é nossa homenageada especial, por
sua coragem de viver jornada dupla de trabalho, domingo a domingo, de sol a sol.
Numa vila em formação, a fatalidade abalou a família de Dona Maura, quando Odílio Macedo, seu esposo, com quem teve os filhos Geralda, Marçal, Menézio, Jair, Mauro e Milton, foi atingido por uma árvore, quando trabalhava próximo ao córrego Quebra-Cabaça.Viúva com seis crianças, com apenas 04 alqueires comprados de Jonas  Policárpo, Dona Maura foi à luta, com o mesmo ímpeto que os valentes Wikings sangravam os mares bravios.
Segundo vários pioneiros que acompanharam a batalha de Dona Maura para criar os filhos, era inacreditável que uma só mulher pudesse buscar tanta força para enfrentar e vencer o grande desafio legado pela partida de seu esposo Odílio Macedo.
Quando Dona Maura atravessava as ruas de Jales, tinha a seus pés a cidade inteira em pose de respeito e admiração.
Fazia o papel de pai,mãe e irmã mais velha de seus filhos. Seus passos sempre tinham a pressa de alguém que pensava faltar ainda alguma coisa para fazer pelos filhos.
Dona Eujácia, esposa de José Silva e outra unanimidade em Jales, dizia que “não cansava de aprender com Dona Maura a difícil arte de sorrir, mesmo pisando em espinhos”.
Dona Maura conseguiu fazer, de seus seis filhos, pessoas  absolutamente do bem!
Certa vez, combinei com os irmãos Neto e Roberto, meus grandes amigos, nadar no Cipózinho, um dos vários córregos que cumpriam muito bem o papel de piscinas públicas, sem cloro e com abundante água corrente. Ao me aproximar da casa de Juventino Cardoso, pai de Neto e Roberto e casado com a mais velha das irmãs Menezes, dou de cara com Dona Maura, me aguardando: - Sua mãe pediu para você ir correndo para casa !
Tentei argumentar que ia brincar mais um pouco e subiria em seguida. Percebendo meu golpe, pediu a Samuel, também filho de Juventino que guardasse uma caixa grande em sua casa,que ela voltaria logo para pegar. E agarrou minha mão, delicadamente, dando-me vários conselhos no trajeto, antes de me entregar para minha mãe, que agradeceu muito o gesto da amiga.
Com sessenta anos de atraso, muito obrigado, Dona Maura !

Roberto Gonçalves é
Cientista Político

 

roberto.motivacao@gmail.com

                                    BAIACO

 Quando um ser humano é atingido por alguma fatalidade, ficando impedido de se locomover e, não dispondo de órgãos auxiliares precisa recorrer aos equipamentos produzidos pelo racionalismo humano. Houve um tempo que a muleta era um dos principais acessórios para auxiliar na movimentação humana, dependendo, obviamente, da patologia geradora da paralisia. Então a genialidade humana inventou a cadeira de roda, equipamento mais adequado e confortável, mas precisando de esforço humano do cadeirante para sua movimentação, ou, da ajuda de terceiros, para empurrar a cadeira.Hoje temos cadeiras de rodas motorizadas, facilitando, e muito, a rotina do cadeirante e seus familiares. A ciência tem melhorado a vida dos cadeirantes, com sucessivos avanços tecnológicos na produção de equipamentos cada vez mais sofisticados.

Enquanto a medicina avança, reduzindo os níveis de deficiência física, através de intervenções cirúrgicas, fisioterapia persistente e utilização de equipamentos auxiliares que não ficam nada a dever ao primeiro mundo, temos como modelo no Brasil a AACD, hoje respeitada em todos continentes.Por outro lado, em contraponto aos avanços da ciência e da tecnologia, inclusive a moderna arquitetura que elaborou projetos revolucionários para facilitar o acesso dos cadeirantes a  prédios, serviços, atravessar vias públicas, frequentar clubes, banheiros, bancos, prefeituras, câmaras de vereadores, fóruns e todas instancias da justiça, enfim, promover o ingresso definitivo do cadeirante aos benefícios da civilização, usufruindo todas  alegrias da vida comunitária, temos instituições que ainda não despertaram para a necessidade, urgente, da inclusão de cadeirantes em todos os bens da cidade.

Conheço várias cidades brasileiras que respeitam o cadeirante em todos seus direitos. Ônibus públicos são colocados nas principais linhas, com elevador na escada de acesso ao interior do veículo. Todas as guias nas esquinas foram rebaixadas, e sinalizadas, para uso exclusivo do cadeirante.Há banheiro apropriado para cadeirante em todos os supermercados, órgãos públicos, fóruns, farmácias, restaurantes, e pasmem os senhores: até em bancos ! Cidades que aprenderam respeitar e conviver com todos os tipos de cadeirantes, demonstrando o grau de civilidade e amor ao próximo de seus dirigentes.

Esta introdução nasceu da indignação de uma carta ao leitor, escrita pelo cadeirante Clamelino Alves, popular Baiaco, um de meus maiores e melhores amigos de infância e juventude. Baiaco estava programado, juntamente com outros amigos do primeiro time, para ser homenageado na série 1949/1968 - A Jales que Vivi. Com a leitura de sua emocionante carta, perplexo com seu desabafo, fico imaginando como é que pode, uma pessoa da grandeza de um Baiaco, eternizado na galeria de estrelas  que ajudaram iluminar a história de Jales, devesse passar pelos constrangimentos relatados !Assim sendo, antecipei minha homenagem às pessoas que na Jales antiga foram cadeirantes ou cresceram na grandeza de serem solidários aos cadeirantes.

Jamais esquecerei Toninho Conde empurrando o carrinho ( como chamávamos na época a cadeiras de rodas ) de Laerte, na subida íngreme da avenida ora empoeirada, ora  barrenta, hoje asfaltada, duas mãos, chamada Avenida João Amadeu. Na descida, Toninho Conde dava um embalo forte no carrinho, empurrando correndo, até chegar ao ponto de soltá-lo na "banguela". Todo santo dia, Laerte teve um anjo da guarda, se não me engano, seu primo, chamado Toninho Conde. Jales inteira prestava atenção naquela dedicação de uma criança empurrando outra, num gesto de amor ao próximo impossível de ser esquecido. Na década de 90, época que viajei muito a trabalho, via sempre os caminhões da Transportadora Conde rasgando o Brasil inteiro, principalmente a Via Dutra. E lembrava das palavras proféticas de João de Paula, quando dizia que Toninho Conde, que foi seu empregado na farmácia, já na fase da adolescência, seria sempre lembrado por seu comportamento de amor ao próximo. E hoje, quando Baiaco levanta o problema do cadeirante, fico imaginando a luta de Toninho Conde, ajudando a locomoção de Laerte, num tempo que a palavra cadeirante não existia em nenhum discurso público, mas apenas no coração das pessoas.

Outro cadeirante que marcou minha infância foi Primo Belon. Seu Primo Belon era parente da família Pêgolo. Como era tio de Jaime Pêgolo, acredito que Primo Belon era cunhado de Jacinto Pêgolo. Primo Belon era sapateiro, dos melhores. Lembro bem que montou uma sapataria, em escala industrial, com vários sapateiros e auxiliares, confeccionando sapatos o dia inteiro. Em sua sapataria se falava futebol o dia inteiro. Vivia batendo ponto lá, chupando conversa sobre futebol.  Jaime Pêgolo e Cai-Cai eram os bambas no assunto futebol, recebendo grande contribuição de Canato, irmão mais velho de Juarez Canato, advogado em Jales. Canato também punha a mão no couro e pregava os sapatos quase com a mesma maestria dos Pêgolo

Sempre com um inseparável cigarro no canto da boca, Primo Belon, um italiano que parecia austríaco, de tão vermelho, vivia, para cima e para baixo, girando a manivela de seu carrinho. Poucas vezes vi alguém empurrando seu carrinho, porque sempre o via na sapataria ou no centro da cidade. Mas sei que nas subidas, recebia ajuda de parentes e amigos. Certa vez, presenciei Primo Belon conversando com Genésio Trindade, industrial do ramo de farinha de mandioca e provável pai biológico do costureiro Clodovil Hernandes, segundo fortes comentários na cidade de Floreal, onde Clodovil nasceu e Genésio era muito conhecido.

Na conversa de Genésio com Primo Belon, o assunto era a eleição municipal de 1957. Naquele tempo as pessoas falavam mais em política, torciam pelo progresso da cidade, viviam com mais ênfase a cidadania.

E voltando a Baiaco, volto aos melhores anos de nossas vidas. Fomos, além de amigos, colegas de classe no saudoso Ginásio Estadual de Jales, no distante 1958. Baiaco, Péricles( irmão de Zoroastro, hoje em Santa Fé do Sul), Silvinho Paz Landin, Takaki, Mario Gonçalves, tudo nitroglicerina pura !  Mas eu e Baiaco éramos os favoritos dos professores. Quem pensou favoritos para elogios se enganou. Éramos os favoritos para serem observados. Coisas de pré-adolescentes, sempre metidos a engraçadinhos.

Certa vez, o inesquecível e querido Dioraci, nosso professor de Desenho, entrou nervoso na sala de aula e me convidou para deixar a sala de aula, o famoso "mandar para fora". Armaram uma para mim que até hoje não descobri. Toda nossa geração se lembra, com muito carinho, do Professor Dioraci Gonçalves. Na vida adulta, encontrei com Dioraci várias vezes, sempre muitos amigos. Em São Paulo, ele morou na pensão da mãe do ator Juca de Oliveira. Juca tem o maior orgulho de ter sido criado com a mãe dando pensão para jovens que vinham do interior para estudar em São Paulo. E também lembra, com muito carinho, dos tempos que Dioraci morou no pensionato de sua mãe

Após o período turbulento da pré-adolescência, já jovens e frequentando os bailes da vida, sempre arrumando um jeito de ser feliz, íamos, em turma, para os bailes da região. Estrela, Santa Fé e Fernandópolis eram os bailes favoritos. Como Baiaco era o galã da turma, era nosso abre-alas para conquistar as meninas. Todas as meninas caiam matando em cima de Baiaco e nós, meia dúzia de coadjuvantes, ficávamos esperando ele fazer a distribuição dos pães, como se dizia na época. Ele selecionava a "cabeceira", isto é, a "top de linha", e pedia às demais, com muito cuidado, que ficassem com seus amigos E aí, entrava nosso talento verbal e o baile era só romantismo.

Outra coisa que ajudava muito nos bailes fora de Jales, era não beber, nem brigar. Enquanto meus amigos ficavam bebendo  e arrumando briga com os jovens da cidade, a gente se dedicava apenas ao objetivo de dançar e namorar. Baiaco era líder e como todo líder, conselheiro. Vivia dando conselho para os mais jovens do grupo. Quem bebe no baile, além da conta, arruma briga, fica com bafo e perde as meninas, era seu chavão favorito. Malandro, dizia sempre, é aquele que não arruma encrenca e só procura alegria. Uma frase de sábio.

Baiaco era gente boa e muito bem humorado. Um alto astral que contaminava o grupo inteiro. Era só se aproximar de Baiaco que o dia melhorava. Como era um jovem que não tinha "tempo ruim", frase muito comum naquela época, a turma respeitava muito sua liderança. Aliás, era líder positivo em todas ocasiões. Se alguém levava um fora da menina, baixava a cabeça e ficava com aquela cara de quem comeu jiló estragado, Baiaco ia direto ao assunto: qual é, meu camarada ?

Então a fulana é a única garota do mundo? Vai ficar aí todo amargurado, pensando que tristeza faz a menina voltar? E dava a receita infalível, usando os versos imortais de Paulo Vanzolini, na voz inesquecível de Noite Ilustrada: levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. E trate de arrumar uma mais bonita e jamais fale mal daquela que te abandonou. Homem tem que saber perder e manter a vergonha na cara.

Assim foi o Baiaco de nossa infância e juventude. Uma pessoa diferenciada, determinada, incisiva, verdadeira.

Quando li a coluna "leitores" do Jornal de Jales de 6 de abril, com o título de "Decepções de um deficiente físico", onde Baiaco, autor do texto, relata as agruras de um cadeirante na Jales que já foi um sonho de felicidade para todos nós, pensei que chegou a hora da sociedade jalesense, com apoio dos jornais de Jales, emissoras de rádio, internet, ADERJ, eventos em geral, iniciarem uma grande mobilização para sensibilizarem os órgãos públicos ausentes ou omissos em relação ao problema

Será que a Câmara Municipal pode parar um pouco de ficar brigando com a prefeita, ouvir as sugestões de Baiaco e fazer a sua parte?

Será que a prefeita, pode parar um pouco de ser teimosa, ouvir as sugestões de Baiaco e fazer a tão sonhada Jales da inclusão dos cadeirantes?

Será que o judiciário pode descer do tradicional salto alto, descendo as escadas para ouvir, com humildade, às sugestões de Baiaco, tornando-se parceiro num projeto que resgate os cadeirantes?

Será que o Ministério Público, cujo fortalecimento na Constituição de 1988, maior sonho de Ulisses Guimarães, permitiu ao Brasil um grande avanço no exercício da cidadania, poderia mergulhar, de corpo e alma, na luta dos cadeirantes jalesenses ?

E vamos aguardar o andar da carruagem, para ver se Jales será a Pasárgada de Manuel Bandeira, onde os cadeirantes serão amigos do rei, ou envereda no abismo de " Cidades Mortas ", obra prima escrita por Monteiro Lobato quando era Promotor Público em Areias.

Roberto Gonçalves é Cientista Político.

 

 

 

               SEMANA SANTA

 

   Hoje é Domingo de Páscoa, fechando, com sua ressurreição, o ciclo dramático do sofrimento de Cristo, e também sua vitória triunfal sobre seus algozes, porque cumpriu sua missão de levar a palavra de Deus a uma sociedade, que naquele tempo, como hoje, insiste em viver sem rumo, sem fraternidade, sem amor ao próximo, sem ética e sem qualidade humana, fundamental para o exercício da convivência.A Semana Santa é uma tradição religiosa católica que celebra a ultima semana de Cristo vivo, começando pela triunfal entrada em Jerusalém e terminando no Domingo de Páscoa. E sobre esta semana, que vivi em Jales durante toda minha infância e parte de minha juventude que desejo refletir e relatar a importância dela em nossa formação, introjetando valores éticos e morais, além de fomentar, em nossos espíritos em formação, a importância do amor ao próximo.

   Desculpe-me os desviados para a teologia da prosperidade, essa picaretagem religiosa que proliferou a partir da utilização da neurolinguística para fanatizar e capturar mentes mais frágeis ou oportunistas, utilizando o chavão “Dá dinheiro prá Deus", retirando das pessoas mais fragilizadas suas poucas economias, bicicletas, motos, casas e até fazendas, para dizer, em alto e bom som: foi a Igreja Católica Apostólica Romana, quem, na Jales pioneira, passou valores eternos e universais para a população de Jales, contribuindo para a construção de cidadãos, entre os quais me incluo que enveredaram para o caminho do bem, dos estudos, da cultura, do trabalho e longe, muito longe, do fanatismo religioso.

    Foi nessa Igreja Católica que Jales bebeu a fé, construiu sua cultura popular, sorriu com o Domingo de Ramos, viveu a lição da cerimônia do lava-pés na quinta-feira santa, chorou a dor da sexta-feira da paixão, aprendeu malhar o Judas no sábado de aleluia e sentir-se gratificado com a ressurreição, momento apoteótico do cristianismo, onde Cristo sobe bonito aos céus, deixando seus torturadores com cara de paisagem e seus seguidores com rosto de anjo, hoje comendo ovos de páscoa.

    No Brasil, e em Jales também, tudo vira comida. Jesus nasceu? Muito bem, Deus seja louvado, seu filho veio a terra para nos salvar! E haja comida no Natal! O pobre do peru não pode ouvir falar de Natal, na certeza que morrerá na véspera. Mata-se leitoa, franco, cabrito, uma orgia gastronômica tamanho família. Cristo nasceu? Tudo bem vamos encher a mesa de comida e toda bebida alcoólica que temos direito, embora Cristo tenha recomendado apenas vinho, bom para a saúde, e principalmente para o coração. Mas deve ser bebido em pequenas doses, com moderação. E o jalesense bebia cerveja, pinga, vodka, gim, rabo de galo, esquecendo um pouco do vinho, alegando que Jales era muito quente e vinho é bebida para o clima frio. Ora bolas!

    É tradição da igreja recomendar aos fiéis que observem alguns sinais de penitência,  durante a semana santa. A penitencia mais conhecida é abstinência de carne vermelha (pelo menos foi assim que aprendi na Jales pioneira), ficando liberada a carne de peixe. Então pergunto: que penitencia é essa de só poder comer pintado na brasa, bacalhau à portuguesa, salmão grelhado, cação ensopado ou traíra à milanesa? Também se recomenda jejuar, além de atos e eventos que resultem em prazer carnal. Na história da humanidade, as religiões surgem a partir de messias que vieram salvar os homens e filosofar a respeito da vida, da ética, do amor ao próximo, enfim, só direcionamento no caminho do bem. Embora não seja mais um católico praticante, como fui nos meus felizes tempos de Jales, continuo católico de casamentos e missas de sétimo dia, como a maioria dos católicos brasileiros. Tenho o maior orgulho de minha formação católica, embora defenda que a igreja precisa ouvir mais a ciência, ao invés de confrontá-la. 

    Temos a quaresma começando na quarta-feira de cinzas e terminando na quinta-feira santa. A quaresma é um poderoso indicador da força moral de Jesus, período que ficou sem comer e beber, mostrando seu exemplo para que a humanidade medite e purifique seus pensamentos, buscando sentir e viver o amor ao próximo. Essa é a verdadeira quaresma. Mas a cultura popular, muitas vezes se desvirtuando dos ensinamentos da igreja, já inventou mil coisas para a quaresma, sempre na linha depressiva de sofrer, não vestir tal roupa, jejuar, não passear, não dançar, e haja tristeza e melancolia.

     Entre todos os dias da semana santa, entendo a quinta-feira como a mais emblemática, pelo significado da santa ceia e cerimônia do lava pés. Na santa ceia, Jesus institui a eucaristia, dando seu corpo, através do pão, e seu sangue, através do vinho, simbolizando o cumprimento de sua missão na terra. Mesmo quem não é católico ou não dotado de alguma religiosidade, mas, em sendo humanista é impossível não reconhecer o gesto de Cristo na Santa Ceia como um dos mais significativos e sublimes exemplos de amor ao próximo. Na cerimônia do lava pés, quando lava e beija os pés de seus apóstolos, deixa para sempre uma mensagem de humildade e calor humano, sinalizando que precisamos ser humildes em tempo integral. E sempre com a mão estendida para ajudar o próximo.Em minha infância, os padres holandeses escolhiam 12 crianças para terem seus pés lavados e beijados. Durante três anos seguidos, tive a sorte de ser escolhido, por duas razões. Primeiro, por acreditar piamente que tal ritual me santificava e segundo, porque as doze crianças ganhavam um tubo de chocolate. Na saída da igreja havia o pedido de "um pedaço" de meus amigos mais carentes que acabavam com meu chocolate. Sabendo que meu coração era mole e dividia o chocolate com a turma, meu pai deixava um chocolate no jeito, fazendo minha alegria ficar completa.

     De todas as celebrações da semana santa, a procissão da sexta-feira da paixão era a mais comovente. Era impossível não ir às lágrimas quando Verônica, interpretada pelo canto magistral de Olga, filha de Seu Antenor e Dona Lazinha e depois casada, para sempre, com o grande Adelino, irmão do Américo. Quando Olga soltava a voz e abria o pano com o rosto perfeito de Cristo, a procissão ganhava uma qualidade artística e a cena era a dignidade perfeita da mensagem. A Verônica, interpretada pela Olga, ficou na memória como um dos melhores momentos de interpretação dramática que assisti em toda minha vida. Sempre que vejo procissão de semana santa, a Verônica da Olga volta com força total, renovando a emoção que nasceu em Jales.

     Outro ritual nascido na semana santa é a malhação de Judas, assumida, de corpo e alma, pela cultura popular. Cada país tem seu modo peculiar de malhar o Judas, mas no Brasil, assim como em Jales, naquela época, se reuniam, para liquidar, furiosamente, um boneco de pano, recheado de serragem, jornais, panos velhos,etc., geralmente pendurado em poste, árvore ou espetado num pau comprido, tipo "pirulito" usado em passeatas, desfilando pelas ruas, até ser espancado e queimado pela multidão.Nunca perdi uma malhação de Judas em Jales. Havia mais espírito lúdico que religioso no evento. Era uma zorra total, muita alegria, bagunça com respeito e disciplina. Os malhadores eram jovens e adultos, mas a molecada pegava carona e jogava umas pedras no boneco de Judas. A malhação de Judas surgiu do desejo de vingança cristã, inconformados com a traição de Judas Iscariotes, que vendeu Cristo por trinta dinheiros. Na verdade, o gesto da malhação de Judas não reflete os ensinamentos de Cristo, na direção de perdoar nossos algozes, ao invés de espancá-los, como fazemos com Judas. Inclusive a malhação de Judas tem saído do campo religioso e ingressado no território da política, simbolizando políticos com elevados índices de rejeição.

Já houve a fase de Maluf ser o Judas de plantão, com sua foto no rosto do boneco, sendo espancado pela multidão. Ontem, em São José dos Campos, o boneco de Dona Dilma, vestida de macacão Petrobrás, viveu seu momento de perfuração e caiu na malhação. A mais famosa malhação de Judas, no Brasil, acontece na Rua Lavapés, em São Paulo. Político paulistano morre de medo virar Judas na Rua Lavapés.A semana santa gera muita promessa nos devotos mais radicais.Nas filipinas, as promessas transformam-se em crucificação, com prego de até quinze centímetros enterrado nas mãos, reproduzindo a crucificação de Jesus. Também existe a autoflagelação, quando as pessoas se chicoteiam, provocando cortes profundos em todo corpo, com sangramento abundante. A igreja tem se posicionado, corretamente, contra mutilações, enquanto alguns governos, como o das Filipinas, através do Ministério da Saúde, têm feito campanhas contra a flagelação, provocadora de infecções que levam à morte. Como o brasileiro é mais esperto, paga promessas viajando até Aparecida do Norte, subindo escadas de joelhos, carregando cruz nas costas em caminhadas e prestação de favores ou exercício de caridade.

     E o maior símbolo do Domingo de Páscoa, dia da ressurreição de Cristo, são os ovos de páscoa, uma tradição milenar do cristianismo. Nenhuma referência de nascer é mais emblemática que o ovo.  Somente no século 19 é que ovo de páscoa virou chocolate puro, como conhecemos hoje. E era uma guloseima desejada, mas pouco adquirida pelas crianças mais pobres da Jales antiga. Era muito caro comprar ovo de páscoa. E a molecada ficava nas portas das padarias olhando com os olhos e lambendo com a testa. Uma cena muito triste, mas que deve servir de exemplo para as futuras gerações de Jales. Menino de classe média, Gilordinho chamava os meninos mais pobres, nas imediações da padaria, e dava um ovo bem grande para repartirem. Que seu irmão Oleno, menino também nota dez, saiba que seu irmão mais velho ajudava humanizar o Domingo de Páscoa naquela Jales que não existe mais.

Todo católico sabe, nos mínimos detalhes, a farsa do julgamento de Cristo, quando Pôncio Pilatos pronunciou a famosa frase: lavo minhas mãos no sangue de um inocente! Mas nem todos se lembram que Cristo foi submetido ao veredicto popular, disputando com Barrabás, ladrão popular, quem deveria ser crucificado. E o povo salvou Barrabás e condenou Jesus! No Brasil, o povo vive votando em Barrabás e nós, pobres contribuintes, somos crucificados!

Roberto Gonçalves é Cientista Político.

"Sem dúvida nenhuma, fatos relevantes são notícias que o povo quer ver, mas nem sempre o que as emissoras de TV, rádios, jornais e revistas divulgam, são necessariamente verdades jornalisticamente éticas e incontestáveis. No atual contexto, em que o capitalismo dita as regras da economia, tudo passa a ter seu valor mercadológico, inclusive à notícia. Até aí, tudo bem. Mas notícia como mercadoria pode e deve ser tratada dentro dos princípios da conduta ética e profissional, tendo como objetivo, acima de tudo, oferecer boa qualidade de informação e satisfazer às necessidades de consumo dos leitores com um produto fidedigno. E este aprendizado sobre o que é ético e o que não é começa nas escolas de jornalismo."

Nota do Blogueiro: O parágrafo citado e que foi publicado  neste blog no dia 21 de julho de 2.013 sob o título-  Politica e Corrupção: Conjugação Fatal, é de autoria da brilhante jornalista Alessandra Silvério no seu artigo - Jornalismo: uma questão de ética.

Alessandra Silvério, jornalista curitibana, graduada em Jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP/PR), em 2001, e pós-graduada em Comunicação Audiovisual, com ênfase em Cinema, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), em 2002.

 

 

 

 

 

BIRIB- Parte II

O artigo BIRIBA, de Domingo passado, foi escrito com as tintas do coração de Olinto Ridolfo, seu Grande amigo para sempre.Começo a segunda parte falando de uma dupla de amigos (Drausio e Biriba), grandes animadores culturais de Jales na década de 50.Drausio e Biriba preenchiam o vazio DA vida comunitária jalesense promovendo bailes, festas, teatro, esportes e atividades sociais. Antes que os anos dourados explodissem em todo Brasil, Drausio e Biriba já haviam antecipado essa era em Jales, introjetando no espírito da população, valores socioculturais que integravam as pessoas. Drausio era filho de Pedro Zana e Dona Izide, irmão de Jovir, casado com Madalena, hoje morando em Campinas. A irmã de Drausio, Neusa, falecida, era casada com Jurandir Viali, deixando os filhos Gleide e Juninho. A esposa de Drausio, Ivete, assim como seus filhos Dayse e Drausinho, moram em Paranaíba. A outra filha de Drausio, Márcia Regina, mora em São Paulo.

O exemplo de amizade que Drausio e Biriba passavam à sociedade jalesense, contribuiu muito para valorizar a importância de ter amigos, viver um mundo melhor, pensar Grande, cultivar o calor humano. Embora apreciassem filmes bang-bang, promoviam eventos modernos, conectando Jales no melhor DA civilização, pensando reduzir aqueles chapéus do velho oeste que dominavam a paisagem jalesense.Tudo que promoviam era trabalho voluntário. A montagem  da peça "Eu quero a luz", tendo Drausio, Biriba e Mirlei Altimari nos papéis principais, foi o maior sucesso de público e crítica. E de evento em evento, a dupla fortalecia o espírito comunitário.

Drausio enveredou pelo caminho do rádio, após a inauguração da Rádio Cultura de Jales, em 1960. Biriba assumiu o Cartório do Registro Civil de Aparecida D'Oeste, após um ano em Vitória Brasil. E assim, a dupla do bem e da alegria separa-se, após ter feito, durante mais de dez anos, Jales ferver de cultura, associativismo, modernidade e vontade de acelerar a vida em rotação máxima.

Após percorrer o Brasil, como ator, no Circo Teatroscope Lambari, Jales abraça o microfone pelo resto da vida. Biriba, desde OS 14 anos vocacionado para a política, mergulha nela para sempre. Uma dupla inesquecível, que nas férias ou feriados prolongados virava trio, com a chegada de Olinto Ridolfo. 

   Produtor de Alegria

 Vendo a tristeza tomar conta de Jales, com boatos espalhados por colonizadores de cidades próximas, assustando o povo com a terrível maleita e desvalorização das terras, provocando uma romaria de caminhões de mudança partindo de Jales, Biriba confabula com Breno, dono do cinema, no qual trabalhava, para reverter a situação.

Breno coloca um alto-falante no jeep, e com Biriba de co-piloto, percorre a cidade e toda zona rural, sempre com o mesmo apelo, revezando-se com Biriba no microfone:

Povo de Jales: não vendam suas propriedades, a maleita está acabando, nossas terras valem mais, vamos virar uma Grande cidade. Acreditem em Jales, vamos ficar e vencer por aqui, etc. Como a locução era ao vivo, quando tinha gente na porteira que Biriba conhecia, citava o Nome do sitiante: Seu Fulano de tal, fale com seus vizinhos, organize uma reunião, vamos ficar em Jales, etc.

O movimento venceu, Jales floresceu e na década de 50 registrou seu maior Progresso! Breno disse a David Lopes que Biriba era um produtor de alegria!

Biriba tinha também seus momentos de apuro, como todas as pessoas. Certa vez, muito apertado, tentou fazer um papagaio no banco, mas seus endossantes, como se dizia na época (agora só se fala avalista ou fiador), estavam todos "carregados", expressão que significava que haviam endossado para outras pessoas, esgotando seus limites. Mas o gerente, assim como a cidade inteira, era muito amigo de Biriba, informou que somente o Velho Isaac estava livre, sem nenhum aval nas costas.

O problema é que o velho Isaac, embora Grande amigo de Biriba, com o qual disputava improviso nas poesias, não endossava para ninguém.Seu Isaac era muito sistemático, embora fosse apaixonado por poesia e repentistas. Contra a opinião do gerente, que disse ser impossível obter o endosso do velho Isaac, Biriba pediu o título para levar ao velho.

Embora reafirmasse que seria tempo totalmente perdido, o gerente cedeu o título, fazendo o xis no local de assinatura do endossante.

Como o velho chegava à cidade pontualmente às seis horas da manhã, com sua mula carregada de leite, Biriba ficou esperando próximo ao cemitério.

Assim que velho Isaac apontou na virada do cemitério, Biriba gritou seu Nome e pulou na frente da mula, sendo logo reconhecido pelo amigo que foi logo iniciando o desafio, como sempre fazia ao encontrar Biriba na cidade:

Meus Deus, que será que aconteceu?

Biriba acordado nessa hora,

Com certeza alguém morreu

Ou a mulher foi embora!

Biriba ajoelha, com a título e caneta na mão e solta sua rima:

Oh TU que vens de longe,

Oh TU que vens montado,

Me endosse logo este título,

senão estou liquidado !

Velho Isaac salta da mula, sem colocar a mão na sela,

Declamando em volume máximo, veia do pescoço dilatada:

Oh amigo ajoelhado no tormento,

Acreditando em meu coração,

Passe logo esse documento,

 

Meu endosso é a solução!

Continuação...

O gerente ficou perplexo e fez a operação. Mas velho Isaac falou aos quatro cantos: Biriba ganhou o endosso, mas eu ganhei a rima. Meus versos deram um show nos dele. A paixão de Seu Isaac pela poesia repentista era muito maior que sua personalidade sistemática. E Biriba sabia! O governador Paulo Egídio era grande admirador de Biriba, desde o dia em que declamou " A MORTE DE UM SALTINBANCO ", num congresso de municípios. Depois daquele dia, Paulo Egídio fez Biriba declamar novamente o mesmo texto mais quatro ou cinco vezes, uma delas num evento particular em família. Corintiano de carteirinha, Paulo Egídio assiste seu time sair da fila, após 23 anos de espera.Na noite do jogo, Biriba em São Paulo, num hotel com mais de trinta prefeitos, tem a idéia de levar o grupo ao Palácio no dia seguinte, com toda cobertura de mídia, um bolo com o número 23 para o governador assoprar, discursos, folia geral Os prefeitos toparam a idéia, Biriba comprou uma camisa do Corinthians, arrumou um bolo e as velinhas e acionou a assessoria de imprensa e política do governador, para viabilizar o evento.

Logo pela manhã, o encontro, com toda mídia nacional presente, produzindo matéria que falou para todo Brasil, começando pelo Jornal Nacional. Os prefeitos escolheram Biriba, vestido com a camisa do Corinthians, para saudar o governador e proceder ao corte do bolo, após apagar as velinhas. E Biriba fez um discurso inflamado: - Graças a Deus, governador, saímos da fila! Nosso sofrido Corinthians deu a volta por cima e mostrou que é o grande timão!Ser corintiano, governador, é o maior orgulho de nossas vidas! E viva o Corinthians, campeão dos campeões!

O Palácio dos Bandeirantes veio abaixo com a estrondosa salva de palmas para o discurso de Biriba, visivelmente emocionado.O teatro de Biriba só não foi perfeito porque meia dúzia de amigos presentes sabiam que Biriba era são-paulino doente !!!!!!!!!!

Meses depois, Paulo Egídio ficou sabendo que Biriba era tricolor do Morumbi e ligou imediatamente para ele: - Biriba querido, fiquei sabendo que você deixou de ser corintiano.

Não estou ligando para puxar sua orelha, mas sim, parabenizá-lo, porque você é o maior artista que conheci em toda minha vida! E os dois morreram de rir !!!!!

Quando Paulo Egídio, nos últimos dias de mandato, foi visitar Biriba na Beneficência Portuguesa, em Rio Preto, ficou quase uma hora comigo e Mirian, esposa de Biriba, revelando sentir muito o acontecido.

 

Na despedida, muito emocionante, chorou conosco!

POLÍTICA EM TEMPO INTEGRAL

Sem populismo, sem demagogia, respeitando profundamente as pessoas, Biriba praticava o marketing intuitivo, isto é, fazia política o tempo todo, por impulso e prazer. Era um líder carismático em tempo integral. Chegando numa casa simples, ia logo para a cozinha, levantava a tampa das panelas, perguntando qual era o cozido, elogiando o aroma, enfim, uma conversa que levava a dona de casa ao delírio, tal a originalidade da conversa e o comportamento de simplicidade verdadeira.

Quando via um menino na porteira, perguntava quem morava ali, para quem o garoto torcia no futebol, e quem ele achava que ia ganhar a eleição.

A pesquisa nunca falhava, porque opinando sobre quem ia ganhar, revelava o voto da família.Quando suspeitava que fulano fosse do contra na política, pedia que eu fosse conversar com a pessoa para ver o grau de receptividade. A tese dele era que o eleitor não é racional, mas afetivo, logo, se fosse do lado dele, seria tratado com o maior carinho, por ser irmão. Se fosse contra, trataria com frieza. Das vinte ou trinta vezes que aplicamos essa técnica, não erramos uma só vez. Eu saia do contato e dizia logo para ele: esse é contra! Ou então: esse é seu. Meia dúzia de vezes ele ficou perplexo e até discordou de minha opinião, em princípio, mas depois teve confirmação oficial por outras vias. Esse método que ele inventou foi um ovo de Colombo para detectar o posicionamento do eleitor suspeito.

Outra técnica fantástica, também inventada por ele, porque nunca vi ou ouvi alguém falar a respeito, foi "gelar" os adversários mais radicais. Sabendo que era impossível conquistar o apoio de fulano, ia visitá-lo, ficava um bom tempo na casa da pessoa, jantava, almoçava, enfim, fazia tudo para "gelar" o sujeito. Dizia: sei, fulano, que você vai votar em sicrano e respeito muito sua opinião, afinal vocês são amigos, etc e tal. Minha visita é para dizer que a eleição passa e a amizade fica. Disputa política tem que terminar após as eleições. Se eu perder, vou fazer tudo para ajudar fulano, seu candidato. Se eu ganhar, espero contar com seu apoio e se você precisar de mim, pode contar comigo, para o que der e vier.

E gelava, com hidrogênio, o cabo eleitoral de seu adversário!

Outra técnica inventada por ele, porque nunca vi nada igual, foi levar uma câmera Polaroid nas visitas. Visitava a família, principalmente na zona rural, e, ao sair, seu companheiro de visita batia uma foto dele com a família, retirando em seguida e colocando, imediatamente, num porta retrato de papelão duro, durável e barato. A família com ele na foto era colocada em cima da televisão ou do móvel que se destacava para ser olhado. Ele sempre dizia: ao levantar cedo para votar, a pessoa bate os olhos na foto, dele com sua família, e pensa duas vezes antes de votar contra.

 DONA MIRIAN EM SUA VIDA

 Quando mudou-se para Aparecida D"Oeste, conheceu a professora cearense, Mirian Nazareth Alencar, casando pouco tempo depois, na Igreja de Jales. Padrinhos: Euplhy e Minerva Jalles e Edilio Ridolfo e Edite Moreira Ridolfo. Mirian e Biriba tiveram quatro meninas, A primogênita, Mirian Jaqueline, é dentista em Aparecida D'Oeste. A segunda filha, médica, recebeu o nome de Marília, em homenagem à filha de Doutor Edilio e dona Edite irmã de Olinto, por quem Biriba nutria um carinho especial. A terceira filha, Monica, herdeira principal do senso de humor de Biriba, é professora e atriz. A caçula, Moema, é professora e mora em Aparecida D’Oeste.

Desde a mais distante adolescência, Biriba fazia muito sucesso com as moças. Namorou de miss a artista, mas na hora de casar, optou por uma moça simples de Juazeiro (terra de José Wilker), Perguntei porque escolheu   uma moça diferente das que namorou, na hora de casar, respondeu: assim como no futebol, namoro é treino, casamento é jogo

Quando sofreu o acidente que o deixou em coma quatro anos e meio, antes de partir, foi cuidado por sua esposa como se fosse uma delicada flor, 24 horas por dia. Uma dedicação e amor que certamente não iria encontrar nas "top models" que passaram por sua vida.

Em 1977, quando trabalhava no SESC de Catanduva, hospedei Luiz Gonzaga em minha casa. Biriba trouxe Mirian para o show e, sabendo que Gonzagão ficaria em minha casa, vieram um dia antes. Entre uma conversa e outra, Luiz Gonzaga ficou sabendo que Mirian era prima de Patativa de Assaré, um dos maiores compositores nordestinos de todos os tempos e grande amigo de Luiz Gonzaga, que gravou várias músicas dele. Na hora do show, entre uma música e outra, falava de Mirian e Patativa de Assaré, exaltando sua presença.

Em 1981, quando dirigia o SESC de São José dos Campos, recepciono novamente Luiz Gonzaga, que já sabia do acidente de Biriba. Abriu o espetáculo, dizendo ao ginásio totalmente lotado, que o show seria oferecido a Biriba e Dona Mirian, mulher nordestina, companheira de cabeceira da cama, no amor e na dor.
                         

DEPOIMENTOS

Devemos a Biriba nosso início de carreira. Abriu para nós todas as portas da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Viemos aqui hoje, na Beneficência Portuguesa, dizer à senhora, D. Mirian, que jamais esqueceremos o Biriba. Fevereiro de 1979 - Chitãozinho e Xororó - Biriba foi o maior animador cultural que conheci em minha longa carreira artística. Quando nos visitava, passávamos horas inesquecíveis. Inhana também ficou sua grande amiga e admiradora.  Fevereiro de 1979 - Cascatinha. Dona Mirian: já falei para o Roberto e vou repetir para a senhora. Gente como o Biriba é como cometa: só aparece de século em século. Mario Zan - Hospital Sirio-Libanes - Março de 1979. Ao telefone, direto do norte de Goiás: Dona Mirian, a senhora é forte como uma pedra e eu gostaria de ter sua força. E o Biriba vai ser falado e lembrado por muitos e muitos anos.

Lambari - amigo e autor de uma frase profética: Mas que tremendo sujeito foi o Biriba!- Agnaldo Pavarin - Ex-Presidente da AMOP.-A rodovia que liga Jales a Aparecida D'Oeste deveria ter o nome do Biriba, do Oscar e do Osvaldinho, prefeitos que lutaram pela construção e a inauguraram com a própria vida! Osmar Novaes - Ex-prefeito de Rubinéia - 1982

" As múltiplas virtudes de BIRIBA são um exemplo para as novas gerações políticas. Fui seu ferrenho adversário político. Na Câmara Municipal de Jales, mas sentia por ele imenso respeito, porque era um ser humano de primeira grandeza. As divergências políticas são ocasionais, mas a grandeza é eterna "

Mensagem de Rollemberg que li no sepultamento de Biriba.

Roberto Gonçalves é Cientista Político


 

 

 

     PUBLICADO NO JORNAL A TRIBUNA 

       Cidade sem sombra

              “Nós fazemos parte da história de Jales”! Como Jalesenses que somos, plantadas, nascidas e crescidas nestas avenidas, temos todo direito de meter o bedelho onde achar necessário sobre nosso pedaço de chão e, mais, quando percebermos o real perigo da nossa destruição queremos lembrar a todos que não se esqueçam da nossa irmã, a Seringueira Gigante da Avenida Francisco Jalles que foi brutalmente assassinada pelo capitalismo insensato!

Aos nossos queridos amigos e irmãos de Jales nos temos até hoje em nossas lembranças da frondosa árvore que todos viram crescer e cresceram conosco;

-quantas crianças que hoje são avôs, não brincaram em nossas sombras;

-quantas crianças, nos nossos  galhos viviam a subir e nós éramos o brinquedo delas;

- também fomos e somos abrigo para os namorados e fomos testemunhas do primeiro beijo. Já não basta a destruição da floresta para plantar bois? “Por quanto tempo viveremos sob ideias megalomaníacas em nome do “desenvolvimento”, quando sabemos que por trás disso tudo existe uma escalafobética incompetência administrativa”

         Amigos, a preservação do patrimônio  é a preservação da identidade de uma cidade. Reconhecimento e proteção de bens coletivamente representativos são atitudes de estadistas. O grande drama de Jales e o seu inferno astral é que nossa prefeita não para de ter surtos e mais surtos de ‘Sinhozinho Malta’, pois a cada dia que passa tem sempre mais uma atitude no mínimo inusitada e intempestiva. Até quando? Acho que está faltando assessoria competente a nossa prefeita. E bota assessoria nisso.

     A paisagem desta cidade, que um dia já foi Centro de Região, está diferente já algum tempo. Primeiro foi à seringueira da Avenida com a Rua Dois. (Tempos:- “subíamos em cada galho daquela árvore e só isso já era uma diversão. Na medida em que alcançávamos um galho mais alto do que antes conseguíamos, era uma vitória. E lá ficávamos, conversando, chupando uma laranja, fazendo brincadeiras. Claro que não faltava um balanço, com galhos tão grossos e uma copa frondosa para nos dar sombra”. Era realmente mágico!) Depois a revitalização do centro feita pelo ex-estadista, sem nenhuma consulta popular: “ aquelas árvores da avenida foram testemunhas de nossa história”. A seringueira não existe mais e agora, para nossa desgraça, essa poda insensata . Parece que estão querendo assassinar essas árvores. Extintas tambem foram às calçadas desta mesma avenida que nos davam uma vaga lembrança de Copacabana, nossa princesinha do mar. Estamos perdendo os simbolos da cidade.

   Certa vez me apresentaram um livro, de uma    lista  de alguns... Dentre muitos outros esse livro: ‘A insustentável leveza do ser, são personagens que mudam de opiniões, buscam novos cenários e motivações, mas não percebem o caráter repetitivo dos erros, dos prazeres e desprazeres que vão e voltam. Cada qual com suas virtudes e vícios, percebem-se em suas insustentáveis levezas”. A insustentável leveza do ser é justamente o caráter fortuito, casual do ser diante da vida inaudita; nada se finca ou se fixa diante do inefável.

     Minha escolha motivou-se pela curiosidade:- O    que   seria        insustentável? Segundo dicionário Aurélio: ’’ Que não se pode sustentar, sem fundamento, insubsistente’’.
     Isso me levou ao mais profundo desejo de repensar os muitos  erros das administrações que por aqui passaram!  Os amantes da história e cultura local estão vivendo um verdadeiro pesadelo, os bens históricos de “nossa cidade” estão sendo exterminados. Mas, alguns erros históricos não são de agora, vem de muitas administrações passadas. Lembram-se da Igrejinha com o seu Coreto que foi derrubada para construção do Fórum; o Cruzeiro da fundação que virou ponte no Córrego do Ribeirão Lagoa; a casa da família Jalles na rua sete e por ai vamos...! Porque os valores históricos de nossa cidade estão sendo desprezados?

    Sabemos que a palavra patrimônio é originada de pai, pois é este que nos dá a identidade, por isso temos o dever de preservar tudo que está ligado à nossa cultura. É nosso dever como cidadãos fazer com que estas pessoas se conscientizem que para fazer a diferença temos que agir com sabedoria, pois o futuro está em nossas mãos.. É nosso dever ajudar a preservar todo bem cultural ignorado pelo poder publico seja        ele   material    ou     imaterial. 

    Amigos que amam Jales, preservar nosso patrimônio é uma forma de reviver nossa identidade, nossa memória é algo de valioso que temos e não devemos deixar que exterminem, por isso a melhor forma de preservação é a união , conscientização e sustentabilidade.

 

    Seja consciente! Ajude nossa cidade, nosso povo a ter sua história mantida viva para ser passada de geração em geração.

 

 

              B I R I B A

 

Sempre soube que meu irmão, Leopoldo Alberto de Oliveira Gonçalves, popular Biriba, foi protagonista, em tempo integral, desde a infância até a interrupção, aos 44 anos de idade, de sua curta e fecunda passagem pela vida.

Analisando seu comportamento, sua fala, o senso de humor, idéias geniais, notei que foi um predestinado, nascido para ser celebridade.

Sempre ouvi, de múltiplas fontes, referências maravilhosas a seu respeito. 

E presenciei, atônito, a maneira que era idolatrado pelas pessoas, de todas as classes sociais, analfabetos e ilustrados, evidenciando  que apesar de humilde e simples, não era uma pessoa comum !

Sempre fiquei orgulhoso, quando, apresentado como irmão do Biriba a destacados homens públicos, artistas famosos e poderosos de todos os quilates, notava que todos elogios a ele continham uma história, alguma

passagem pitoresca, uma admiração verdadeira.

Mesmo possuindo lembranças e material abundante para escrever um extenso artigo a seu respeito, achei melhor não fazê-lo, porque escrever sobre Biriba seria uma emoção difícil de ser vencida, como acontece agora, quando já levantei duas vezes para enxugar as lágrimas.

Tenho me limitado a citá-lo, como já fiz em artigos anteriores, porque os fatos narrados tiveram "pontas " de participação dele e de seu amigo irmão Drausio Antônio.

No cair da tarde de um domingo, toca o telefone e a voz amiga de Olinto Ridolfo na linha. Conversa com Olinto sempre tem Jales, a grande saudade !

E de repente, com voz enfática, em tom de intimação, Olinto cobra um artigo sobre Biriba. Ponderei minha dificuldade em faze-lo, quando Olinto, exaltado, salientou que a história dos grandes homens de Jales não pode ser mutilada ! E continuou " Excluir Biriba seria uma injustiça irreparável com a biografia de uma personalidade que foi uma identidade, quase uma R.G. de Jales, referencia positiva que engrandece uma cidade " !

Alguns dias após nossa conversa, Olinto manda por e-mail  três páginas a respeito de Biriba.

Eis alguns trechos do depoimento de Olinto:

" Biriba completou 80 anos ontem, 5 de abril. Eu faço 80 anos no próximo 11 de maio. Nossa diferença de idade é apenas um mês.

Ainda muito jovem, com 15, conheci Biriba, tão menino como eu !

Nossa convivência permitiu conhece-lo melhor. Sinto-me um homem privilegiado por ter dividido com ele muitas reflexões sobre os mais variados temas. E hoje, sob o impacto da saudade, esta palavra mágica, singularidade da língua portuguesa, sem equivalentes apropriados em outras, pois palavra de muitos significados, destacando o desejo de rever e a lembrança representada em diversos poemas importantes.

É sob este impacto da saudade que narrarei um pouco do que Biriba significou para mim, para os seus inúmeros amigos e admiradores, especialmente para Jales e região.

Esbanjava uma alegria permanente. Tratava a todos de forma muito respeitosa, revelando seriedade no trato e, ao mesmo tempo, extraordinário senso de humor.

Diferente do fisiologismo que hoje permeia a classe política brasileira, Biriba servia a causa pública, sem pedir nada em troca.

Nossa convivência, através do tempo, esse senhor da existência, era pautada por convergências. Dentre outras, a radical defesa dos interesses do povo. Foi neste contexto de amizade que imaginávamos o ideal de uma legítima democracia: sem conflitos, crises, delinquência, violência, corrupção, populismo, etc.

Vivemos severa utopia da mocidade, sonhando uma nação e um mundo muito melhor. Que pena tais sonhos não terem se tornado realidade. O cristal da confiança se quebrou ! Surgiram novos paradigmas. O palco da política, no qual Biriba se movia, e era uma mestre inigualável, mudou. Naquele tempo havia dignidade, palavra, ética, respeito e outros valores nobres, virtudes cultivadas por Biriba na plenitude. Era respeitado e querido, não agia por interesses menores.

Sua moeda de troca era a sinceridade, o interesse público, o bem comum.

Abominava a mediocridade, mas respeitava os medíocres, gesto de pessoas inteligentes e humildes. Amava Jales como os pássaros amam a flor, os enamorados amam a lua  e os sábios amam as respostas !

Biriba merece o título de um verdadeiro "Homem típico da cidade de Jales ". O seu exemplo deve ser seguido, e a sua pessoa, homenageada. E se estará fazendo justiça, enaltecendo a história de Jales e de seu povo.

Dentre os inúmeros amigos de Biriba, destacava-se Drausio Antônio, figura também muito importante na história de Jales.

Biriba, Drausio e eu, fazíamos muitas brincadeiras. Uma vez, em São Paulo, no Viaduto do chá, compramos um chapéu e, quando víamos alguém, dizíamos: lá vem o fulano, comparando com alguém nosso conhecido. Então Drausio ou Biriba chegava perto da pessoa e o chamava pelo nome inventado. Obviamente, como não era a pessoa, insistia-se em chama-la pelo nome "comparado" e, após a surpresa causada, mediante as reclamações, nos afastávamos, gargalhando !

Passagens aparentemente banais, mas coisas saudáveis de jovens.

Biriba almoçava em nossa casa, onde meu pai, Edilio Ridolfo, o queria como filho, no mínimo três vezes por semana. Minha avó Feliciana, que morreu com 102 anos, gostava muito dele e o tratava como um neto querido, sempre revelando profunda alegria ao vê-lo chegar.

E sempre repetia a mesma rima, quando ele se aproximava:
- Biribinha, Biribão,

  Olha no relógio e sabe a hora do feijão !

Outro acontecimento significativo no currículo de celebridade que Biriba possuía, foi no período de instalação da comarca de Jales, criada por uma lei de 3/12/1952. O memorial da população do município de Jales pleiteando a comarca,  elaborado por Euplhy Jalles, em 8/8/1951, foi encaminhado ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, pelas mãos do Desembargador Oswaldo Pinto do Amaral.

Em Jales ,era muito forte o sentimento de gratidão ao referido Desembargador. Em 25/3/1953 houve a instalação da comarca, e, para as solenidades, não poderia faltar o Desembargador, convidado de honra.

No avião que o trouxe .de São Paulo, estava D.Eponina Jalles Rubião Meira, irmã de Euplhy Jalles. e alguns convidados especiais, entre os quais Biriba e eu.

Chegando a Jales, naquele antigo aeroporto (pista simples e precária) da década de 50, nos esperavam a Banda de Música, autoridades e uma incalculável multidão, inclusive crianças agitando bandeirinhas. Um inesquecível momento apoteótico.

O avião pousa e a  banda começa sapecar um dobrado no volume máximo, rojões explodem em todas direções, a multidão começa gritar, eufórica, aguardando o tão esperado Desembargador, que, pelo protocolo, deveria ser o primeiro a descer a escada, pois maior autoridade na comitiva.

Abre-se a porta do avião e, para surpresa geral e alegria de todos, a primeira pessoa que aparece, acenando todo feliz para a multidão, era nada mais nada menos que Sua Excelência, Leopoldo Alberto de Oliveira Gonçalves, meu sempre querido amigo BIRIBA, o melhor político que conheci na vida ! "

E assim, o grande Olinto Ridolfo, fundador da ZYR-237, Rádio Cultura de Jales, filho dos imortais Edilio Ridolfo e Edite Moreira Ridolfo, foi redator majoritário deste artigo, obrigando-me escrever, no Jornal de Jales do próximo domingo(dia 13), o BIRIBA - parte dois.

 Roberto Gonçalves é Cientista Político

 

 

 

 JALES E O GOLPE PRIMEIRO DE ABRIL

 

 Este artigo é mais um, entre tantos documentos que se escrevem às futuras gerações, como um sinal de alerta em favor da democracia, várias vezes violentado pelas forças armadas na história brasileira.

Estamos na véspera do cinquentenário de uma triste data que ficou conhecida como Golpe Primeiro de Abril, embora os militares neguem, até hoje, a verdade da data, chamando a besteira que fizeram de Revolução 31 de Março, evitando associação com o Dia da Mentira.

Parece que foi ontem, mas faz meio século! Dia 23 de março de 1964, 22:00 horas, Bar do Zezão lotado, todos ouvidos ligados na cadeia de rádios que transmitia o famoso comício na Central do Brasil, Rio de Janeiro.

Bar do Zezão, como era chamado por todo mundo, ao lado do Cine Jales, na Rua Oito, era o Bar do saudoso Seu Otoni, pai do Zezão, Maria e Vavo.

O comício da Central foi o maior evento público do governo João Goulart, cuidadosamente divulgado e preparado para anunciar as chamadas "Reformas de Base", clamor dos setores progressistas da sociedade, dos sindicatos, movimentos populares, UNE (presidida por José Serra), ligas camponesas, intelectuais, universidades e a totalidade da classe artística e cultural do Brasil.

João Goulart era nacionalista, na melhor tradição do PTB, partido de centro-esquerda moderado, mas de arraigada convicção democrática, embora herdeiro do getulismo, notório inimigo da democracia

Contra João Goulart, o imperialismo americano, ainda traumatizado com a derrota sofrida em Cuba, tentando evitar na América do Sul uma nova Cuba, como parte de sua estratégia geopolítica na guerra fria com a União Soviética.

A propósito, para os leitores entenderem melhor o interesse americano de ser, ao mesmo tempo, dono e polícia do mundo, basta ver o que está acontecendo na Ucrânia, com a grande mídia ocidental defendendo a posição americana, de interferência indevida na soberania dos povos.

Através de um plebiscito amplamente democrático, o povo da Criméia, com mais de 95% dos votos, optou por sair de órbita da Ucrânia, país com o qual tem pouca afinidade, voltando participar da federação russa.

O plebiscito foi uma cala boca na Europa Ocidental que lambe as botas dos americanos. Mesmo assim, vivem procurando chifre em cabeça de cavalo para justificar a posição política e moral equivocada diante da vontade soberana do povo da Criméia.

E assim como fazem hoje com a Criméia, os Estados Unidos, através da Operação Brother Sam, ficaram na retaguarda militar para invadir o Brasil, caso o golpe militar fracassasse.

Dos partidos que combatiam o governo democrático de João Goulart, a UDN de Sarney (sim, ele, antigo na corrupção e vilania), banqueiros e Carlos Lacerda, era o mais forte.

Grandes empresários urbanos e latifundiários brasileiros, unidos às multinacionais, temerosos de aumentos salariais e reforma agrária, também se alinharam na linha de oposição ao governo de João Goulart.

O aumento de 100% concedido por João Goulart ao salário mínimo, elevando de 21 para 42 mil cruzeiros, atravessou a garganta dos capitalistas.

As forças armadas, sempre comprometidas com golpes de Estado, violentando a democracia, fez soar os tambores da guerra, como havia feito em 1889, depondo um imperador popular, querido pelo povo e que teve a coragem, contra a vontade dos capitalistas, libertarem os escravos,

Com a implantação da Republica, uma sucessão de presidentes militares, despreparados para governar uma nação civilizada.

A chamada Revolução de 30 também foi um golpe militar, com a destituição do Presidente Washington Luiz, para impedir a posse do presidente eleito Julio Prestes, colocando em seu lugar, pela força da armas, Getúlio Vargas, candidato derrotado por grande margem de votos. E durante quinze anos, Getúlio Vargas apagou a luz da democracia, implantando uma violenta ditadura e perseguindo, de maneira implacável, todas as forças progressistas, com destaque para os crimes contra Luiz Carlos Prestes e sua mulher Olga Benario.

Em 1945, novo golpe militar, desta vez contra Getúlio Vargas.

Em 1950, Getúlio volta pelo caminho democrático das urnas, mas a conspiração militar, liderada pela UDN, derrotada no voto com o Brigadeiro Eduardo Gomes, fracassa.

Em 1954, tentam novamente depor Getúlio, mas este aborta o golpe militar, pagando com a própria vida, através de um tiro no peito, provocando grande comoção popular, assumindo o governo o Vice-Presidente Café Filho.

Em 1955 o povo elege Juscelino, da velha escola mineira do PSD, em aliança com o PTB, fortemente ligado aos trabalhadores. Os militares tentam impedir a posse de Juscelino, mas são contidos pela forte liderança militar do Marechal Teixeira Lott, que deu o contragolpe, garantindo a posse de Juscelino.

Assim que Juscelino toma posse, a conspiração militar começa correr solta na caserna, logo acontecendo as revoltas de Aragarças e Jacareacanga, sem sucesso, por falta de apoio popular. Respaldado em ampla aceitação popular e prestigiado por implantar um governo desenvolvimentista, Juscelino fechou todas portas para golpes militares.

Em 1961, Jânio Quadros, eleito em 1960, renuncia e os militares tentam impedir a posse do vice-presidente João Goulart, que se encontrava em missão diplomática, na China. O governador do Rio Grande do Sul e cunhado de João Goulart, Leonel Brizola, do PTB, montam a Rede da Legalidade, com rádios de todo Brasil transmitindo a resistência ao golpe militar.

Os militares recuaram, mas impuseram o parlamentarismo, objetivando enfraquecer o governo de João Goulart. Assim, João Goulart seria apenas Chefe de Estado e o Primeiro-ministro seria Chefe de Governo.

João Goulart, aguerrido político gaúcho, foi transformado em Rainha da Inglaterra: reina, mas não governa!

O parlamentarismo torna-se uma crise permanente, mostrando-se incompatível   com   a   tradição   presidencialista republicana. No império, o parlamentarismo deu certo, mas depois de 75 anos de República, fortemente presidencialista, naufragou !

Indignado com a besteira que os militares fizeram, o Congresso Nacional aprova a emenda constitucional apresentada pelo Deputado Oliveira Brito (PSD-BA), em 18-8-1962, convocando o povo brasileiro para decidir pela continuidade do parlamentarismo ou retorno do presidencialismo.

Dia 6 de Janeiro de 1963, o povo vai às urnas e derrota o parlamentarismo inventado pelos militares, com 80% dos votos, restabelecendo o presidencialismo.

Daquele plebiscito em diante, os militares conspiraram 24 horas por dia.

A tradição golpista de republiqueta latino-americana de nossas forças armadas se iguala aos países mais atrasados do mundo. Em razão de possuírem as armas na mão, nossos militares se julgam superiores a sociedade civil, esquecendo que são pagos pelo contribuinte brasileiro para defender a Pátria e não ficar violentando a democracia, oprimindo a população indefesa e rasgando a constituição.

E João Goulart, homem simples e de boa fé, acreditava que grande parte das forças armadas tinha espírito democrático e impediria a evolução do movimento golpista.

Cercado de forte base parlamentar no Congresso Nacional e um ministério de primeiro mundo, com vários ministros de projeção internacional, com predominância de intelectuais alto nível, João Goulart começou a luta pelas reformas de base, que nada tinham de revolução comunista, como os reacionários apregoavam. Era apenas uma tentativa de humanizar o selvagem capitalismo, predominante no Brasil.

E o comício da Central do Brasil apavora os setores conservadores, a oposição política golpista (leia-se UDN), os militares conspiradores, maioria absoluta nas forças armadas, diferente do que pensava João Goulart.

Desarmada, a população brasileira nada pode fazer para impedir o golpe militar de Primeiro de Abril, que os militares traidores da Pátria chamam de Revolução  31 de Março!

Em Jales, houve a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, copiando a marcha de São Paulo, liderada pelas madames da alta sociedade paulistana, sinalizando o caráter de classe do golpe militar, em favor dos poderosos e contra as reformas que iriam beneficiar as classes populares.

A marcha jalesense teve a presença, na linha de frente, da direta local, que depois virou Arena, partido de sustentação da ditadura.

Dom Artur Horthuis, primeiro bispo diocesano de Jales e o Pastor Donald Leroy Goldmith, da Primeira Igreja Batista, na primeira fila.Um  holandês e um americano, na frente, e os colonizados, atrás !

Mas houve resistência, em Jales. A grande voz que se levantou contra o golpe foi a de nosso prefeito Roberto Rollemberg, falando ao povo através da ZYR-237, Rádio Cultura de Jales.

Sua coragem pessoal, externando profunda convicção democrática, ficou gravada, para sempre, na memória dos jalesenses portadores de consciência política, espírito cívico e compromisso democrático com as instituições, começando pelo respeito à Constituição.

Manifestou seu repúdio ao golpe, afirmando que “é preciso respeitar a legalidade democrática e a personalidade do Presidente da República, eleito pela vontade soberana do povo brasileiro. somente o povo, através de eleições livres, pode mudar seus governantes ". Uma fala de estadista!

O discurso de Rollemberg, pelo rádio, custou sua liberdade, sendo preso e mandado para o quartel de Lins, base do exercito mais próxima de Jales.

O gesto de coragem demonstrado por Rollemberg, não foi esquecido pelos militares.Eleito deputado estadual, em 1966, foi cassado pela ditadura na primeira lista após o famigerado AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Cassado no mesmo dia do professor Fernando Henrique Cardoso, sempre que se encontravam, um perguntava ao outro: como vai meu companheiro de cassação, publicada no Diário Oficial da União, no mesmo dia e na mesma página?

Este artigo é uma homenagem especial a Rollemberg, um líder político maior que sua província, extrapolando as fronteiras do Estado de São Paulo, conquistando o respeito do Congresso Nacional, onde foi um dos melhores e mais brilhantes homens públicos da história do Brasil!

Roberto Gonçalves é Cientista Político 

 

 

 

 

 

FOI  UM  CIRCO  QUE  PASSOU  EM  NOSSA  VIDA

 Antes de entrar no circo, gostaria de agradecer, imensamente, o grande escritor, poeta, chargista, entre outros predicados, Rui Rodrigues de Souza, pelo maravilhoso livro " O trem de minha cidade " , com excelente prefácio do Prof. Belon. O livro chegou até minhas mãos, com dedicatória emocionante do Rui, por gentileza do Emerson Martins, hoje meu vizinho e sempre amigo, que o recebeu das mãos de meu eterno e inesquecível amigo de infância Mário José Gonçalves, que vive me agradando, com medo que eu conte o tanto que fomos " arteiros " !

A boa notícia que temos, além do imortal Genésio Seixas, outro escritor de primeira grandeza em Jales, só faz aumentar minha responsabilidade com os leitores do Jornal de Jales e com os historiadores do futuro, porque o trabalho que estou fazendo não é pesquisa acadêmica, e sim, relatar, com análise, os vinte anos (1949/1968) que vivi, intensamente, a vida de Jales. O circo foi aquele saudoso reino da fantasia que povoou a imaginação das crianças. Foi nossa Facip civilizada! Só música de primeira qualidade, os melhores cantores do Brasil, expressando o verdadeiro sentimento do povo.

Hoje vivemos a porcaria do axé e do b rega sertanejo, revelando a triste decadência da música popular brasileira, hoje quase dizimada pelo mau gosto que tomou conta da televisão. As grandes festas do brega sertanejo, que de caipira só tem o nome, não promovem mais a pureza sentimental do homem do campo, ficando mais próxima da pobreza cultural urbana. Nas décadas de 40 e 50, o circo fazia o povo crescer na área sócio-cultural, como se fosse um " Ministério da Cultura " móvel, de excelente qualidade, prestando significativo serviço público à sociedade.

Para ser contratado por um circo, o artista tinha que ser dotado de voz privilegiada. Sem excelência artística notória, não havia contrato! No começo da década de 80, trabalhando no SESC. recepcionava consagrados expoentes da música popular brasileira, e, no jantar após o show, entre os vários assuntos, sempre saia um rasgado elogio ao circo brasileiro, importante na infância de todos.

Dick Farney (Copacabana, princesinha do mar.....). com certeza um dos grandes ídolos de Vanderley Garcia e Drausio Zana, símbolo da música urbana carioca zona sul, confessou seu encantamento pela voz de Inhana, da dupla Cascatinha e Inhana. Quando Inhana soltava aquela voz afinadíssima, parecendo embebida em mel, lembrando Nat "King" Cole de saias, o circo se tornava um templo da sensibilidade em seu melhor momento, delirando em profundo silêncio diante daquele canto maravilhoso da alma.

O rádio brasileiro, das grandes capitais, sempre foi conectado aos interesses das gravadoras, priorizando o interesse destas, nem sempre preocupadas com o melhor para elevar a sensibilidade musical do povo brasileiro. E as rádios de Jales sempre foram livres e independentes, tocando o melhor da música popular brasileira. Não sei como andam as emissoras de Jales, mas torço para que resistam ao axé e brega sertanejo, contribuindo com a cultura brasileira.

Centenas de circos espalhados pelo Brasil, muitos passando por Jales, trouxeram a melhor música, malabaristas, trapezistas, variedades, humor, teatro, musicais, com destaque, para nós, crianças, dos palhaços que provocavam risos inesquecíveis. Saudade de Mexerica, Bacurau,Peroba,Pouca - Roupa e mais uma infinidade de trabalhadores da alegria. A importância do circo na história de Jales só não foi total e absoluta, por se tratar de empresa privada, logo, necessitando cobrar ingresso, fator impeditivo de acesso da população mais carente. Embora fossemos uma pujante agricultura, tínhamos grandes bolsões de pobreza. A base de nossa colonização foi pequenos proprietários rurais, sistema de minifúndio nascido da visão futurista de nosso fundador, Euplhy Jalles, engenheiro politécnico da USP.

Como Jales estava em acelerado progresso, sua fama se espalhou, recebendo também imigrantes miseráveis, sem qualificação profissional, alojados em precárias casas de pau-a-pique nas beiradas da cidade. A maioria de nossos amigos de infância eram filhos desse contingente de carentes, que foram se acertando como meeiros, arrendatários, peões, serviços gerais na construção civil, "chapas"(carregadores de caminhões),etc.

E a garotada mais carente tinha dificuldade para comprar o ingresso tão sonhado, na busca delirante de viver o maravilhoso mundo do circo.

Mas como as crianças sempre dão um jeito nas coisas, principalmente as mais difíceis, inventaram a fórmula básica para entrar no circo sem pagar. A expressão  "vai vazando", utilizada hoje, significa "vá andando", "cai fora", "sai daqui". Naquela época, "vazar" significava entrar no circo sem pagar.

A molecada se aproximava, sorrateiramente, da lona, nas laterais. Olhavam em todas direções, evitando ser apanhados pelos guardas que fiscalizavam as cercas. Não havendo guarda por perto, levantavam a lona, entravam e ficavam alojados embaixo das arquibancadas, também conhecidas como "poleiro", por serem o setor mais barato.

Uma contravenção muito usada pelos mais pobres e também (pelo espírito de aventura) por filhos da incipiente classe média urbana.

"Vazei" o circo algumas vezes. Depois que fui convencido, por cães ferozes, a não fazê-lo, nunca mais pensei no assunto! Nas andanças pela vida, conversei muito com amigos sobre o circo. A maioria confessou que também "vazou" o circo.

Já os meninos da zona rural, chegavam ao circo com suas famílias, em carroças ou charretes, comprando o ingresso nas bilheterias. As crianças da zona rural eram muito mais comportadas que as da zona urbana, ou "vila", como eles chamavam a cidade.

A passagem do circo pela cidade atiçava a vontade de guloseimas raras em nosso cotidiano. Na padaria, era sempre aquela paçoca amanhecida, com "gosto de cabo de guarda chuva", expressão que significava " gosto de coisa sem gosto".

Nas proximidades do portão de entrada do circo, a loucura pelo pirulito, antes de começar o espetáculo. Sua majestade, o pirulito, era o sonho de consumo da garotada. Tinha a forma de cone e, para transportá-lo, um tabuleiro furado, sustentado por um grosso barbante, fixado nas laterais e circundando o pescoço do vendedor, mantendo suas mãos livres.

Outra batalha era pelo algodão doce, guloseima de sucesso até hoje.

Além de obtê-lo pela compra, havia como ganha-lo, desde que levássemos um ovo e uma xícara grande de açúcar.

Nossas mães não percebiam a "baixa" no açúcar e as vizinhas não desconfiavam que havia diminuição de ovos nas ninhadas de suas galinhas, nas temporadas de circo na cidade.

E o espetáculo sempre começava com o Respeitável Público dirigido à platéia. Depois do malabarismo, palhaços, trapézio, mágico, variedades, o show que encerrava a sessão:

E agora, o grande Mário Zan !!!!!!

E a famosa sanfona já entrava tocando "Quarto Centenário", com a platéia aplaudindo freneticamente !

E Mário Zan, maior compositor brasileiro de todos os ritmos, saudava Jales, com profunda intimidade:

- Meu abraço ao povo de Jales, da mesma araraquarense de Santa Adélia, onde passei minha infância no cafezal, após chegar da Itália, aos quatro anos de idade.

E mandava ver Chalana, Capricho cigano, Amendoim torrado, O homem não deve chorar e aquela infinidade de grandes sucessos.

Através de meu irmão Biriba, fiquei amigo de Mario Zan, mantendo essa amizade, por muitos anos,pois freqüentávamos  a mesma padaria.

A ultima vez que conversamos foi numa cantina do Bexiga, em São Paulo, no final dos anos 90. Almoçava com meu amigo e colega de trabalho Romulo ( pai da atriz Mika Lins ) e meu sobrinho Antônio Carlos( popular Passarinho ), quando Mario Zan chegou com um pequeno grupo de amigos. Pediu licença ao grupo, solicitou o prato pretendido, e sentou com a gente por um tempo.

Mario Zan ficou impressionado com a cultura musical de Passarinho, uma grande enciclopédia no assunto e também invocado com seu apelido , perguntando a origem do mesmo. Passarinho disse que jogou muito futebol em Jales, "voando" com a bola, como se fosse um pássaro veloz, daí recebendo o apelido. Uma cascata que nem Romulo, nem Mario Zan acreditaram, mas, educadamente, engoliram em seco.

Ao se despedir, após ser alertado pelos amigos que a comida estava esfriando, Mario Zan perguntou a Romulo:

- Você conhece Jales ?

Romulo respondeu que não, ouvindo de Mario Zan um elogio que estufou meu peito jalesense:

- Você não sabe o que perdeu ! Nunca vi tanta mulher bonita em toda minha vida !

 Roberto Gonçalves é Cientista Político.

 

 

 

 


    OS ELEITOS I

Candidatos Paraquedistas

    Já virou rotina em nossa cidade: em todas as eleições para deputado Estadual e Federal, ela é visitada por um grande número de candidatos, que por aqui nunca estiveram. Ou se por aqui um dia passaram, foi em igual período, aquele que antecede ás eleições para deputados.

     Chamados de paraquedistas, centenas destes malandros candidatos invadem nossa cidade e levam dezenas de milhares de votos embora, indicados por alguns vereadores mercenários que em troca de “algum apoio financeiro” para eles trabalham. As pesquisas indicam que metade dos votos válidos, vão para candidatos que vieram de fora, ou da região. Vão para candidatos que não tem compromisso nenhum com nossa cidade. Querido leitor e eleitor veja bem qual candidato “seu” vereador está indicando!

    Esses candidatos, sabedores da pouca atenção que a população dá para a eleição de  deputados conquistam por algumas moedas, além dos vereadores, grupos e lideranças, e com eles conseguem conquistar os votos dos incautos e despreocupados com o futuro da cidade.

    Por isso lanço neste espaço o “Voto Útil”, o voto que tem a utilidade de eleger candidatos com compromissos com da cidade, aqueles que podem ajudar a melhorar a vida da população, trazendo emendas e recursos para a cidade. A nossa Jales que um dia já foi Centro de Região padece a muito tempo de um representante na assembléia estadual e na câmara federal. Nossos últimos deputados foram os saudosos Osvaldo Carvalho (estadual) e Roberto Rollemberg            (federal).
     Parece não fazer falta um deputado, mas faz. E muita. E isso logo na tão decantada Jales, cidade vista como “muito politizada”, de povo aguerrido, muito esclarecido, aonde se respira política praticamente          o         dia      inteiro.
Lamentavelmente é          isso     mesmo. O povo de Jales está excluído, alijado, fora de todo e qualquer debate há muito tempo. Jales está passando à margem, renegada não ao segundo ou terceiro, mas ao ultimo plano na política estadual e federal, e com esse desastrado e imoral governo municipal, então, servimos hoje apenas à estatística, ao senso do IBGE.
      Que tristeza, logo nós, que nos vangloriamos de entender tão bem do jogo político, que adoramos debater, criticar, elogiar, especular       sobre a          política... que            decadência!!!!!!!!
       Estamos perdendo o jogo de goleada para Fernandópolis e Votuporanga e, cuidado,  Santa Fé vem ai.       Essa é a         verdade.
Mas, tem uma coisa que me intriga dessa tal “profissão político” é a falta de paridade na disputa em peso de igualdade de novos nomes. Uma campanha de deputado estadual e federal custa milhões de reais, inibindo assim que outros candidatos possam também participar desse bolo tão almejado por quem já fez profissão de carteirinha.

       Cabe a você caro eleitor julgar de forma consciente se há merecimento para colocá-los de novo nas cadeiras do poder subserviente, acostumados na barganha e nos conchavos eleitorais em detrimento de interesses questionáveis. Mas antes faça uma pergunta a si mesmo, tenho o serviço de saúde que mereço? Meu filho tem a qualidade na educação que merece? Tenho a oportunidade de trabalho satisfatório? Tenho a aposentadoria de tranqüilidade? Tenho bons serviços em minha cidade? Se a resposta for sim para essas perguntas tens o candidato que merece.

Voltarei a este assunto em breve, aqui neste espaço democrático, mas deixo as perguntas feitas aqui para que todos respondam, afinal como disse o poeta, “a            lição   sabemos       de            cor...”.No mais, todos sabem,  errar é humano, persistir no erro é que é burrice.

 

 

 

 

 

 

QUINZE ELEIÇÕES EM VINTE ANOS

 

A democracia tem lá seus defeitos, mas é o melhor sistema político inventado pela humanidade, lá atrás, na Grécia de Péricles.

Apesar do populismo desenfreado rolando solto pelo país, o voto democrático, direito tão importante como a liberdade, aconteceu em Jales quinze vezes, no período de 1949 a 1968. Em prazo tão curto, um abundante "porre democrático ", usando a linguagem de cronistas políticos.

Jales viveu, assim como o Brasil, vinte anos de intensa politização, com as pessoas discutindo política, como hoje discute futebol, fala de novela e perde tempo com o Big Brother ! Nesse período, Jales  acompanhou as andanças do Brasil nos trilhos do populismo, uma das deformações da democracia, pois suprime o racionalismo na política. Uma democracia sem raciocínio político consagra atores que trabalham com as emoções, fazendo jogo de cena eleitoral, seduzindo, iludindo e encantando um povo despolitizado, como o brasileiro, ávido pelos shows do espetáculo eleitoral, alheio às reflexões de homens  sérios e capacitados para o exercício da vida pública. Temos vários exemplos de populistas teatrais, destacando Jânio, Collor, Maluf e Lula, expoentes máximos da enganação geral que assolou e continua assolando o país.

Após sua emancipação a município, Jales votou três vezes para presidente, quatro vezes para governador, seis vezes para prefeito,

uma vez, em 6 de Janeiro de 1963, para votar a emenda  apresentada pelo deputado federal Oliveira Brito( PSD-Bahia ), restabelecendo o regime presidencialista. Nas eleições de deputados e senador,

 em 1966, já com a democracia mutilada pelo golpe militar de 64, suprimindo eleições diretas para governador e presidente.

Em 1949, Jales vota, pela primeira vez, na condição de município. Concorreram Euplhy Jalles e Sergio Ferreira Dias, vencendo, com folga no placar, o fundador da cidade. O candidato derrotado não desiste e na eleição seguinte se elege vice-prefeito, na chapa de Pedro Nogueira.

Em 1950, tivemos duas eleições: presidente e governador. O ex-ditador Getúlio Vargas volta ao poder, pela primeira vez via caminho democrático das urnas, vencendo Eduardo Gomes, da UDN, um partido rico de idéias, conceitos éticos e projetos, mas pobre de votos. Populista gaúcho, Getúlio empolga as massas com  célebre refrão, ao iniciar o discurso: brasileiros !!!!!!!

Após pausa demorada, a conclusão apoteótica da saudação: trabalhadores do Brasil !!!!!!!!!

O mundo vinha abaixo, chapéus erram arremessados para o alto, o povo gritava em surto de delírio! 

Para governador, Jales votou em Lucas Nogueira Garcez, apoiado pelo carisma populista de Adhemar de Barros. Tecnocrata de excelente currículo, Garcez foi o "poste" fabricado por Adhemar, para lhe devotar fidelidade canina, o que acabou não acontecendo, gerando violento rompimento. Em artigos posteriores, faremos minuciosa análise a respeito de "postes" que viram as costas a seus construtores. Na política brasileira, a margem de "postes" ingratos (ou dignos ?) é maior que os postes fiéis. 

Em 1952, a segunda eleição municipal. Apoiado pelo prefeito Euplhy Jalles, o Professor Paulo Sampaio Matos. Representando a oposição, fortalecida pelo grande crescimento do distrito de Três Fronteiras, ao qual pertencia o populoso povoado de Santa Fé do Sul, é lançado o jovem e querido médico Pedro Nogueira. Pedro vence e Euplhy experimenta sua primeira derrota na história de Jales.

Em 1954, rompido com o Governador Garcez, que não o apóia, Adhemar de Barros se candidata, contando com a fidelidade de seu grande eleitorado no interior. Enfrenta o populista mais artista que surgiu na história brasileira,  de nome Jânio Quadros. Adhemar vence, com folga, no interior, mas a nova periferia da capital,

sensível ao discurso colérico, dá estrondosa votação a Jânio, tirando a diferença interiorana em favor de Adhemar. E por insignificante diferença de votos, Jânio torna-se governador de São Paulo, iniciando nessa eleição o ciclo populista da bipolarização janismo e ademarismo, predominante  nas décadas de 50 e 60.

A eleição presidencial de 1955 tem quatro candidatos. Adhemar de barros, pelo PSP. O PSD E PTB recolhem o espólio de Getúlio e descarregam em Juscelino Kubstchek. Juarez Távora, herói da coluna Prestes, envereda para o campo conservador e sai candidato pela UDN, maior partido da direita brasileira. E representando a saudade de Hitler e Mussolini, Plinio Salgado, chefe do integralismo brasileiro, sai candidato pelo PRP, liderado, em São Paulo, por Hugo Borghi. O chefe desse partido, em Jales, era o industrial  Adoniro Rulli, sogro de Barão da Farmácia, meu irmão mais velho.. O envolvimento de Rulli ao PRP, era tão arraigado,  que seu filho caçula recebeu o nome de Hitler.

Venceu Juscelino e o Brasil mudou !

Em 1957,  eleição municipal com apenas dois concorrentes, repetindo a tradição das duas eleições anteriores. Jales não tinha terceira via !

O candidato apoiado pelo prefeito Pedro Nogueira (Gino da Farmácia), enfrenta Euplhy Jalles, numa eleição que não tinha mais Santa Fé para votar contra Euplhy. Vencedor com grande diferença, apesar de haver perdido em alguns distritos, com destaque para Santa Salete, que elegeu Alexandre Moraes ( pai do atual presidente da Câmara Municipal de Jales,  Gilberto Moraes ), com estrondosa votação  ( para a época ) , de 305 votos.

Estive analisando a qualidade do legislativo de Jales desde a primeira eleição, em 1949, quase chegando à conclusão que a de 1957 é a pole position, embora a de 1961 chega junto. Duas legislaturas de cachorro grande, em todos quesitos de avaliação, na história de Jales. Mas essa análise terá um artigo específico.

Em 1958, eleição para governador, com Adhemar de Barros enfrentando Carvalho Pinto, Secretário da Fazenda de Jânio Quadros.

Foi uma eleição estadual que gravitou em torno da eleição presidencial de 1960, com o slogan de Jânio, em todos os comícios: Se Carvalho Pinto for eleito governador de São Paulo, serei candidato a Presidente da Republica ! Deu certo, derrotando, mais uma vez, o ademarismo.

Em 1960, final da gestão JK. Grandes realizações, Brasília, implantação da indústria automobilística no Brasil, aberturas de estradas, elevado índice de aprovação popular. Mas JK, com a tradicional esperteza mineira, não suou a camisa para eleger seu candidato, o militar nacionalista, digno e honrado brasileiro, Marechal Teixeira Lott, já pensando em voltar, em 1965. Sem apoio ostensivo da popularidade de JK, Lott foi derrotado pela tragédia populista janista, causadora de

terríveis males ao Brasil, em razão de sua renúncia estapafúrdia.

Em 1961, a vitória esmagadora de Rollemberg, no leme de um barco chamado Movimento de Renovação Administrativa, em aliança com o poderoso PSP de Jales, que lança o vice João do Carmo Lisboa, vereador em Jales e ex-prefeito de General Salgado. O candidato apoiado pelo prefeito Euplhy foi Jorge Gasbarro Junior, empresário do ramo imobiliário, loteador do Jardim São Jorge, em Jales. Meu grande amigo Laú (Alaudim José Ribeiro) casou-se com a filha de Gasbarro e mudou-se para Campinas, onde mora até hoje.

Em 1962, eleição para governador e, desta vez, Adhemar bate a carteira de Jânio ! Desgastado pela renúncia, o grupo janista se dividiu, ficando a ala mais séria e tecnocrática com o governador Carvalho Pinto, que lançou candidato a governador José Bonifácio Coutinho Nogueira, apelidado de " Zé Bonitinho " pelos janistas revoltados com a dissidência de Carvalho Pinto. E não deu outra: Vence Adhemar e o janismo sofre sua maior derrota eleitoral.

A renúncia de Jânio provocou uma grave crise institucional, quase impedindo a posse do vice-presidente João Goulart. Para amansar os eternos militares golpistas, a grande resistência da Rede de Legalidade, liderada por Leonel Brizola, impede o golpe militar, com a instituição do regime parlamentarista de governo, ficando o presidente Chefe de Estado e o Primeiro-Ministro, chefe de Governo. A implantação do parlamentarismo intensificou a crise política, levando o Congresso Nacional convocar um plebiscito, através da emenda constitucional do deputado Oliveira Brito, do PSD da Bahia, para decidir se o povo desejava voltar ao presidencialismo ou manter-se no parlamentarismo.

Dia 6 de Janeiro de 1963, mais uma eleição nacional, com a volta do presidencialismo sendo aprovada com 80% dos votos populares.

Em 1965, a quinta eleição para prefeito de Jales. Rollemberg lança o vereador Honório Amadeu, com o empresário e vereador José Antônio Caparroz de vice. Honorio havia sido vice-prefeito de Euplhy na eleição de 1957. E a oposição a Rollemberg, agora já na condição de novo cacique jalesense, comete o erro mortal de se dividir. O grupo de Euplhy não consegue uma composição com o PSP, maior partido jalesense e com o respaldo do governador Adhemar de Barros.

O grupo mais próximo de Euplhy se junta, aos amigos de Dr.Reis na maçonaria e lançam José dos Reis Guimarães, dentista muito querido e nome sempre lembrado, em eleições anteriores, para ser o candidato de consenso. O PSP lança João do Carmo Lisboa, supremo chefe do ademarismo em Jales. E venceu Honório Amadeu, considerado o melhor prefeito de Jales, em função deste mandato conquistado nas eleições de 1965.

A ditadura militar implantada em 1964 eliminou as eleições para governador e presidente, cassando Adhemar de Barros e todas grandes lideranças nacionais, como JK, Jânio, Brizola, Lacerda, enfim, todos líderes que representassem ameaça ao projeto militar de usufruir o infinito gozo do poder e só receber continência, deixando de batê-las.

Assim sendo, 1966 teve apenas eleições para deputados e senador,  no bipartidarismo, porque os 13 partidos nacionais foram extintos. Para os militares venderem ao mundo a idéia que havia democracia no Brasil, deixaram o Congresso Nacional aberto, mas de joelhos.

E nas eleições de 1966, disputaram Arena (partido da ditadura) e MDB(partido de oposição). Carvalho Pinto, pela Arena, venceu a eleição para o Senado, com votação massacrante. O povo aprovava a ditadura.

E nessa eleição, Jales elege, pela primeira vez, um deputado estadual.

No sufoco do rebolo, Rollemberg foi nosso primeiro deputado, após duas tentativas de EuplhyJalles e uma de Edson Freitas de Oliveira.

E falando em Edson de Freitas, com sua vitória para prefeito, em 1968, certamente a mais importante de todos os tempos, pelo conjunto de significados, a serem devidamente analisados, no artigo final da série que será transformada em livro.

Dei uma pincelada nas quinze eleições, realizadas em apenas 20 anos, para esclarecer aos leitores que a maioria dessas eleições terão artigo próprio, intercalados, para não cansar os leitores com overdose de política.

E no Jornal de Jales do próximo domingo, dia 23 de março, não deixem de ler “Foi um circo que passou em nossa vida ! ".

 

Roberto Gonçalves é Cientista Político.

 

 

 

              NELSON FOLHEIRO

A política assistencialista, desde o império, se sustenta na tese que considerável parcela do povo brasileiro não consegue ganhar o pão com o suor do próprio rosto, necessitando de ajuda.

A idéia de dar o peixe, ao invés de ensinar o povo pescar, é predominante no Estado brasileiro, desde longa data. Também na rede de proteção social privada, constituída de instituições filantrópicas que trabalham pela inclusão social, prevalece o mesmo viés paternalista.

O caminho mais curto de ação social no serviço público brasileiro, nascido do câncer populista que contamina todas as eleições (nacional, estadual e municipal ), é justamente dar o peixe, gerando visibilidade e aplauso imediato. E nada de se pensar e agir na construção da cidadania!

Em havendo um Estado forte, priorizando a educação, em primeiro lugar, será possível, a médio e longo prazo, a organização de uma população vocacionada para o trabalho, deixando de ser parte do problema e tornando-se parte da solução.

É preciso que o serviço público disponha de profissionais qualificados para definirem quem são os carentes que necessitam de proteção permanente.

Menores abandonados, idosos sem família e deficientes mentais, são os casos que necessitam de apoio e proteção total do Estado e instituições privadas que praticam a filantropia como ação efetiva de amor ao próximo.

Por outro lado, considerável parcela da população saudável vive sugando os recursos, escassos, do Estado, através de aposentadorias precoces, tipo "machucou um dedo", "está falando fino",

"dor na coluna", "miopia", enfim, um amontoado de pequenas causas.

Temos também um exercito de pedintes nas esquinas, faróis, feiras livres, metrô e por todos os cantos do Brasil, captando recursos à vista, livres do imposto de renda, sem chefe na orelha e nada de ingressar no mercado de trabalho produtivo.

Num país sem planejamento familiar, vive-se a doce maternidade irresponsável, gerando filhos que não podem ser educados e sustentados pela família, quando ela existe, e, pior ainda quando são gerados em produção independente. O resultado é que tudo cai nas costas do Estado, explodindo no bolso do contribuinte, responsável pelo pagamento da conta.

A política de governos populistas, desviando vultosos recursos da educação para o bolso de pessoas saudáveis, pagando para eles as contas que deveriam pagar trabalhando, como todos nós, fecha o ciclo inesgotável da triste política assistencialista brasileira.

Tais reflexões nos remetem a um brasileiro que tinha tudo para ser dependente da caridade pública, mas trabalhou duro, enfrentando e vencendo todas as adversidades.

Nelson Clemencio de Souza, popular Nelson Folheiro, é um dos maiores e melhores exemplos de vitória pelo trabalho, desmentindo a velha prática paternalista de "dar o peixe”, demonstrando que o caminho da vitória começa pelo "ensinar a pescar ".

Proveniente de Potirendaba, onde trabalhou com Pascoal Bernardo, pioneiro jalesense, recebeu ensinamentos para aprender a pescar, através da profissão de folheiro, atividade que exige utilização de braços e pernas para subir escadas, andar pelo telhado, equilibrar-se nos beirais. Um trabalho muito difícil e até impossível, diriam alguns, porque Nelson teve paralisia infantil, perdendo todos os movimentos das pernas e tendo que se locomover através de muletas. De origem humilde, Nelson era filho de Seu Juvenal, pau para toda obra em serviços gerais, e Dona Maria Parteira, responsável por trazer ao mundo centenas de crianças na Jales pioneira. Casado com Dona Marciolina Lopes de Souza, teve os filhos Osmar (primogênito), Osmar (popular Totinha), Hilda ( falecida), Vanilda, residente em Rio Preto e Osmarina, ainda morando em Jales.

Dona Marciolina é irmã do saudoso Joventino Lopes, popular "Jove", nosso amigo de bailes no Tênis Clube, onde era exímio bailarino. André, filho de Jove, trabalha na prefeitura de Jales e Flávio, seu irmão, herdou a profissão de folheiro do pai e do tio. Nelson Folheiro era irmão de Ordalino, grande jogador do Independência, famoso time de futebol na Jales dos anos 50, ao lado de grandes craques, como Roxinho, Horacio Cardoso, Alemão, Drausio Zona e seu irmão Jovir, Zé de Souza, João Herrera, Bonga, Mauro Macedo e outros que serão citados nos próximos capítulos. Outros irmãos de Nelson eram Vicentina, nossa amiga de infância, hoje morando em Rio Preto e Geralda, mãe de Dercio, ainda morando na cidade. Também era seu irmão Osvaldo, popular Querosene. Aliás, apelido é uma praga nas pequenas cidades, onde todos se conhecem.

A rotina de Nelson era estafante. Saia para fazer orçamento, voltava para a oficina, cortava o material e martelava o dia inteiro. O advogado Irineu Trazzi, nosso vizinho, casado com Dona Isaura e pai de Marilena, Magali e Marilda, era fã número um de Nelson e sempre dizia que "a martelada de Nelson era um sino barulhento para acordar os vagabundos que não gostam de trabalhar ". De vez em quando, subíamos juntos a Rua Oito, em direção ao centro. Nelson enroscava mais que anzol em curva de rio, como se dizia, na época. Eram tantos amigos e admiradores puxando um "dedinho" de prosa, que tinha de fazer malabarismo para poder chegar ao destino. E quando a conversa começava ficar comprida, tinha um chavão pronto: dá licença, fulano, pois preciso entregar urgente um orçamento, senão perco o serviço. E seguia em frente...

Quando encontrava o advogado Ovídio Pinheiro, cunhado do grande zagueiro Mauro, das copas de 58 e 62, ia logo perguntando:- - Quando vai ser o júri do Roque? - Dia tal. Vai dar o ar da graça?  - Sim, se tudo certo, vou bater o ponto. Gosto só da parte de debates, quando o promotor quer prender e o advogado de defesa quer soltar. E haja risos!!!!

Nelson era uma pessoa ilustrada. Leitor de jornais e revistas semanais, como Cruzeiro e Manchete. Quando acabava o jornal na banca, meu pai mandava buscar na casa de Nelson o jornal que ele sempre guardava para meu velho, seu amigo do peito. Embora fosse bem mais velho que eu, sempre o chamei de Nelson, numa época que chamar os mais velhos sem o "seu" era pecado mortal. Quando fui contínuo de banco, em 1960, estava atendendo Nelson e meu chefe se aproximou, observando que eu o chamava sem o "seu", e, em altos brados, chamou minha atenção:- - Nelson não! É Seu Nelson! Fiquei pasmo com a grosseria, mas Nelson falou por mim:- Esse menino me convenceu abrir conta aqui, sempre me chamando de Nelson!

E virou as costas, movimentando as muletas, sempre de cabeça erguida.

No trevo de Tanabi, Rodovia Euclides da Cunha, 9 de abril de 1976, Nelson Clemencio de Souza, hoje nome de rua em Jales, fez a viagem da eternidade. Dona Marciolina, sua esposa, ficou em coma 15 dias. Seu grande amigo Albano Rugai, era o motorista do veículo e sempre anjo da guarda de muitas pessoas que ajudou em sua trajetória de vida positiva.

Sempre prestativo Albano sobreviveu para cumprir a missão de continuar ajudando as pessoas. Genro de Quirino Pereira Belo e Dona Maria, nossos grandes amigos, Albano sempre esteve presente, nos confortando, na partida de entes queridos.

A decisão de dedicar um artigo para Nelson Folheiro faz parte da coerência em homenagear aqueles que entendo como os verdadeiros heróis de nossa cidade !

O exemplo de Nelson Folheiro é o melhor legado para os estudiosos de problemas sociais! Sua movimentação nos telhados, nas escadas, nos perigosos beirais, é a maior prova que o trabalho é mais importante que a caridade.

Venceu o drama da paralisia infantil pela força de vontade, o amor à profissão e a coragem de ousar, mostrando à sociedade que a única vitória, digna e honrada, só pode acontecer pelo trabalho. Exemplo maior de trabalho, Nelson também soube viver a terapia do lazer, sempre colaborando com eventos esportivos, curtindo o prazer da vida comunitária em seu tempo livre.

Lembro dele apitando jogos de futebol, interrompendo a partida quando havia uma entrada violenta.

Juntava os dois times no meio de campo e falava, com firmeza e ternura, aquela frase que jamais esquecerei: "Futebol não é briga, é diversão. E vamos abraçar os colegas".

Quando Jales participou do Programa Silvio Santos ( cidade contra cidade ), contra Rio Claro, disputou uma partida de futebol,entre gordos e magros, no Estádio Roberto Rollemberg. O bandeirinha do jogo era Nelson Folheiro, que dividia a responsabilidade de "bandeirar "a partida com animado bate-papo com a torcida.

Eis aí Nelson Clemencio de Souza, Nelson Folheiro, para sempre !

Roberto Gonçalves é Cientista Político

 

DOMINGO  DE  CARNAVAL

 

Sim, hoje é o dia apoteótico de carnaval, mas onde está o povo de Jales ?

Através de amigos, fiquei sabendo que o carnaval jalesense foi substituído pelos ranchos das orlas dos grandes lagos, retiros espirituais e a fixação nas poltronas diante da televisão.

Sobrou apenas o carnaval  de salão popular, patrocinado pela prefeitura desde a fundação de Jales. E ainda bem que restou o querido risca-faca, permitindo que os mais pobres soltem sua alegria no salão.

Será que a quietude dos ranchos substitui o prazer de dançar e cantar Sassaricando, na voz de Virginia Lane, a vedete do Brasil ?

Sassaricando, todo mundo leva a vida no arame,

Sassaricando, a viúva, o brotinho e a madame,

O velho, na Praça da Colombo, é um assombro, sassaricando !

Retiro significa retirar-se, afastar-se, ficar longe da festa, negando sua importância na vida cultural brasileira e deixando de viver a catarse de cantar com as multidões, na doce voz de Carmem Miranda:

Ô balancê balancê, quero dançar com você !

Entra na roda morena prá ver, o balance balancê !

Optando por ficar "chumbado" na poltrona diante da televisão, como abraçar os amigos, sentir o calor humano no suor  da folia, se esbaldando com o grande sucesso de Lamartine Babo:

O teu cabelo não nega mulata,

porque és mulata na cor;

mas como a cor não pega mulata,

mulata eu quero o teu amor !

Fugir do carnaval, festa que faz nossa fama no mundo inteiro e principal

atração turística geradora de divisas para nosso país, seria a melhor decisão ?

Longe do carnaval, retiramos as marchinhas de nossas vidas e não cantamos mais a obra prima mais tocada, em todos os tempos:

Mamãe eu quero, mamãe eu quero,

mamãe eu quero mamar !

Dá a chupeta, dá a chupeta,

dá a chupeta pro bebê não chorar !

Não é justo a Jales que delirou com Carmem Miranda, esquecer de seu maior apelo em favor do amor:

Taí, eu fiz tudo prá você gostar de mim !

Oh meu bem não faz assim comigo não,

Você tem, você tem que me dar seu coração !

O carnaval de 2014 é um retrato social crítico do afastamento de nossas raízes culturais. A grande festa de Momo nasceu para ser a arte do encontro, cantada em prosa e verso por Vinicius de Moraes, quando estufa o peito e declama que " a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida ".

Esta crônica/artigo foi escrita em Copacabana, na casa de minha filha Renata, onde passo todos os carnavais desde 2007, somando a sorte de um passeio 0800 e o prazer infinito de viver, até morrer, as maravilhosas marchinhas do Rio de Janeiro, em cores e ao vivo !

Estou saindo no Cordão do Bola Preta e sempre lembrando de Escurinho, o grande mestre de bateria que fez Jales tremer no batuque do samba !

Sempre busquei, desde a primeira infância, encontrar e dividir o bom humor da existência com as pessoas que fazem o mesmo !

E hoje, domingo de carnaval, 2014, minha primeira matinê faz aniversário de sessenta anos. E tudo  aconteceu num salão improvisado na Avenida Lagoa, hoje Francisco Jalles, onde funcionou a Casas Jaraguá. Um dia para ser comemorado duplamente. Primeiro, por estar vivo e saudável, fazendo, todas as semanas, uma declaração de amor à Jales, através de minhas crônicas e artigos que revelam a Jales que vivi. E por ter começado, aos 7 anos, em 1954, sentir com mais intensidade o elixir da vida em todas manifestações ´sócio-

culturais da sociedade, com destaque para o carnaval.

Lembro como se fosse hoje, nos mínimos detalhes ! Minha irmã Carmem me fantasiou de pirata, com espada e tudo. Quando entramos no salão, a primeira marcha de carnaval que entrou em minha vida:

Ô jardineira por que estás tão triste ?

Mas o que foi que aconteceu ?

Foi a camélia que caiu do galho.

deu dois suspiros e depois morreu (BIS).

Havia crianças humildes, descalças, retraídas, retrato de uma sociedade de classes. E também havia crianças fantasiadas, revelando confortável posição social. Mas não havia segregação e todo mundo dançava com todo mundo.

Sambando como passista, Nádia, filha do médico Eduardo Ferraz Ribeiro do Valle, apresentava uma fantasia que enchia os olhos de admiração. Juntava a beleza de seu rosto carioca e o talento para sambar como gente grande. Um espetáculo ! Nádia deveria ter 7 ou 8 anos. Mas cantava, bem decorado:

Você pensa que cachaça é água, 

cachaça não é água, não !

Cachaça vem do alambique,

e água vem do ribeirão !

Sempre sorridente, Nádia cumprimentava as pessoas, deixando transparecer, com rara elegância, sua educação refinada.

Outra criança de nossa idade era Sonia Caparroz, filha primogênita de Caparroz e Dona Francisca. No mesmo pique de Nádia, Sonia, com aquele rostinho de boneca austríaca, embora filha de espanhol, dançava como gente grande. Dava cada giro no corpo que parecia ter frequentado escola de samba. Fantasiada de bailarina clássica, saia de ballet e sapatilha, cabelo amarradinho, dava um show no salão.

Mesmo com a roupa grudada pelo suor intenso, a gente continuava dançando, como se aquela matinê de 1954 fosse o melhor dia de nossas vidas.

E de Mário Lago, sapecamos Aurora:

Se você fosse sincera, ôôôôô Aurora

Veja só que bom que era, ôôôôô Aurora !

E a terceira menina, exatamente de minha idade, era Lucia Helena Mistilides, filha caçula de Seu Felipe, o popular "Titio". Lucia era irmã de Vassilios, Elza, Daime e Maria, a melhor marcadora de festa junina que conheci na vida ! A família Mistilides voltará em artigo específico !

Lucia Helena sempre teve vocação carnavalesca. A ultima vez que a vi, nos anos noventa, na Avenida Paulista, em São Paulo, fiquei sabendo que morou no Rio e, junto com seu marido Mussato, desfilou vários anos na Marques de Sapucai. Aquela criança de nossa primeira matinê, sessenta anos atrás, tornou-se minha grande amiga, para sempre !

E hoje, em pleno 2014, estou sambando no Rio de Janeiro, obviamente sem o brilho de Lucia Helena, mas dando meus passos. E pensar que Lucia foi a criança daquela matinê que venceu o sambódromo e foi estrela do carnaval carioca ! 

E a matinê de 1954 durou uma eternidade, começando pela garganta afiada de Emilinha Borba:

Chiquita bacana lá da Martinica,

se veste com uma casca de banana nanica;

Não usa vestido, não usa calção,

o inverno pra ela é pleno verão !

Marlene, maior rival de Emilinha Borba, com quem disputava, palmo a palmo, o primeiro lugar nas paradas de sucesso, não deixou por menos:

Lata d'água na cabeça,

lá vai Maria, lá vai Maria !

Sobe o morro e não se cansa,

numa mão leva criança, lá vai Maria !

E o salão explodia de alegria. A poeira na rua corria solta e até entrava um pouco no salão. A passagem de caminhões, carroças, charretes e muitos cavaleiros, levantavam um pó infernal, mas a gente não parava de dançar e cantar o grande sucesso de Chiquinha Gonzaga:

Oh abre-alas, OH abre-alas,

que eu quero passar !

Eu sou da lira, não posso negar,

eu sou da lira, não posso negar !

A porta do salão era grande, mas os adultos ficavam espiando, impedindo a entrada de ar para refrescar aquele forno crematório.

Era domingo e o pessoal da zona rural vinha passear na cidade,

desfilando em seus cavalos pela avenida, fazendo o relinchar de seus animais entrar dentro do salão, mas sobrevivemos e com muita alegria.

Cheguei em casa exausto e mergulhei em sono profundo, antes do dia escurecer.

Por favor, devolvam nossa matinê de 1954 !

Vamos ativar os bailes de salão do Ipê e Jales Clube !

Jales merece a volta de suas escolas de samba, de seus blocos,

de um carnaval de rua que não pode morrer !

Jales é mais centro de região que Votuporanga e Fernandópolis, mas gravitamos na sombra de Santa Fé, até no quesito carnaval.

 

Viva o sonho de o carnaval voltar para Jales!


 

 


 

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